ZECA BALEIRO – “BOAS FESTAS”

Eu já escrevi sobre o compositor Assis Valente (José de Assis Valente), uma das biografias mais interessantes da MPB. Segundo sua certidão, ele teria nascido em Santo Amaro(BA) – a mesma cidade de Caetano e Bethânia – em março de 1911, mas, segundo ele mesmo contava, seu nascimento teria ocorrido durante uma viagem de sua mãe, entre as cidades de Bom Jardim e Patioba, ambas na Bahia.

Menino ainda, teria sido roubado dos pais e entregue a uma família de Santo Amaro, que o criou. Depois de vagar pelo interior em um circo, chegou a Salvador, onde trabalhou como farmacêutico, estudou desenho e aprendeu prótese dentária. Em 1927, com apenas 16 anos, ele se mudou para o Rio de Janeiro, iniciando-se no ofício de fazer dentaduras.

Começou a compor em 1930 e uma de suas primeiras músicas recebeu o sugestivo nome de “A Infelicidade me Persegue”. Homossexual em uma época em que a sexualidade das pessoas era severamente vigiada, Assis casou-se em 1940 com uma datilógrafa, com quem teve uma filha.

A infelicidade, no entanto, continuou perseguindo o compositor e, alguns meses depois do casamento, ele tentou o suicídio pela primeira vez, pulando do Corcovado em um precipício de 800 metros. Foi salvo por um galho de árvore onde se enroscou e pelos bombeiros que o resgataram.

Em outra ocasião, Assis tentou se matar cortando os pulsos com uma lâmina de barbear. Em março de 1958, bastante endividado, ele decidiu tomar uma dose de formicida com guaraná, depois de ser espalhafatosamente cobrado por uma senhora, a quem ele devia quatro mil cruzeiros. Dessa vez, não teve escapatória.

Antes, ele escreveu um bilhete no qual pedia ao amigo Ary Barroso o favor de pagar os dois meses de aluguel que ele (Assis) estava devendo ao dono da casa onde morava. Pediu também, ao público em geral, que comprassem seu último disco. Em seu bolso, além do bilhete, encontraram um par de óculos, a identidade com o retrato rasgado e duas notas amassadas de cinco cruzeiros.

Assis Valente deixou clássicos da MPB, como “E o Mundo Não Se Acabou“, “Camisa Listrada” e “Brasil Pandeiro“. E deixou também o nosso maior clássico natalino. No Natal de 1931, sozinho em seu quarto, ele resolveu espantar a solidão compondo uma música. Nasceu “Boas Festas“, cuja gravação catapultou a carreira de Carlos Galhardo, àquela altura um cantor iniciante. No vídeo abaixo, “Boas Festas” é cantada por Zeca Baleiro.

  

2 comentários

  • A interpretação melancólica de Zeca Baleiro é bem condizente com a letra,que apesar de ser uma canção natalina é de uma tristeza sem fim.Com a alma torturada do compositor,a única coisa que ele desejava do Papai Noel era a felicidade: ”Ou talvez felicidade é um brinquedo que não tem”.

  • Uma curiosidade,foi cantando essa música na televisão com um revólver apontando a sua cabeça que o Caetano Veloso chocou os militares e a sociedade conservadora da época.

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