Categoria: Música

RITA LEE – “BALADA DO LOUCO”

O grupo Os Mutantes já era relativamente famoso quando, em 1972, lançou a música “Balada do Louco”, cuja mensagens desperta muitas reflexões. Com letra de Arnaldo Batista e Rita Lee, essa canção já teve diversas regravações, sendo a mais famosa a de Ney Matogrosso.

Segundo a lenda, o mote para a composição da música foi um episódio vivenciado por Arnaldo Baptista em uma aula de karatê. Durante a tal aula, Arnaldo cismou de desafiar uma colega de academia para uma luta e acabou que ele apanhou da moça.

Uma semana depois do episódio, ainda inconformado por ter apanhado de uma mulher, Arnaldo foi visitar um cunhado de Rita Lee e, enquanto ensaiava alguns acordes no piano da casa do amigo, pôs-se a refletir sobre a “surra muito louca” que tinha tomado.

A letra veio em seguida e teve a colaboração de Rita Lee, que deu à letra rascunhada por Arnaldo um toque poético e, ao mesmo tempo, filosófico. Logo na primeira estrofe, há uma celebração à loucura. “Dizem que sou louco por eu pensar assim, mas se eu sou louco por eu ser feliz, mais louco é quem me diz…”

O dado curioso é que, anos depois de gravar a música, Arnaldo Baptista experimentou sua dose de loucura. Ele teve um surto psicótico e chegou a ser internado em uma clínica psiquiátrica, mas deu um jeito de pular da janela e fugir. Há quem garanta que ele continua meio louco até os dias atuais.

Em 1998, Rita Lee – que participara da gravação original, dos Mutantes – regravou a “Balada do Louco” em seu Acústico MTV. Ela deu um toque especial à letra, passando alguns adjetivos e substantivos para o feminino.

As mudanças promovidas pela titia Rita Lee não ficaram apenas nos adjetivos e substantivos. Ela trocou, também, o Alain Delon pela Sharon Stone, a dona da cruzada – ou descruzada – de pernas mais famosa do cinema. Trocou, também, o Napoleão pelos Rolling Stones.

A letra original diz que “se eles são bonitos, sou Alain Delon; se eles são famosos, sou Napoleão…”. Já a versão do Acústico TV diz que “se eles são bonitos, eu sou Sharon Stone; se eles são famosos, I’m Rolling Stone…”.

Eis o vídeo:

FREDDIE MERCURY – “WE ARE THE CHAMPIONS”

O dentuço Freddie Mercury teria completado 75 anos em setembro passado, não fosse a aids que abreviou sua passagem por este mundo cruel. Ele nem sempre atendeu pelo nome de Freddie Mercury. Nascido em Zanzibar, atual Tanzânia, seu nome de batismo era Farrokh Bulsara.

Na quarta-feira passada, 24 de novembro, completou-se 30 anos que Freddie foi para outro plano. Vocalista, pianista e principal compositor da banda inglesa Queen, ele conviveu com a aids durante quatro anos, numa época em que a droga mais eficaz contra a doença era o AZT e o preconceito contra os soropositivos era imenso.

Talvez, por isso, apesar dos boatos insistentes dos tabloides britânicos, como o The Sun, que já vinham noticiando durante todo aquele ano de 1991 que Freddie Mercury tinha aids, o astro pop só declarou oficialmente que era portador do vírus um dia antes de morrer.

Apesar de declaradamente homossexual, o grande amor de Freddie foi uma mulher. Trata-se de Mary Austin, que o conheceu em 1970, quando ela tinha 19 anos e ele, que ainda não era famoso, tinha 24 anos. Eles moraram juntos durante seis anos e o relacionamento acabou quando Freddie disse a Mary que era gay.

Mesmo com a separação, eles continuaram próximos. Quando Freddie morreu, deixou 50% de seus ganhos futuros para Mary, além de parte de sua fortuna, incluindo a mansão em que morava, avaliada em R$ 150 milhões. Mary, atendendo a um desejo de Freddie, é a única pessoa que sabe onde foram guardadas as cinzas do astro do rock.

No auge do sucesso, Freddie se apresentou no Brasil com o Queen em dois shows no Morumbi, em março de 1981. Mas foi no Rio de Janeiro, durante a primeira edição do Rock in Rio, que a banda alcançou seu recorde de público (mais de 250 mil pessoas) em cada uma das noites (11 e 18 de janeiro de 1985).

As composições do Queen eram tão populares no Brasil que o próprio Freddie Mercury ficou surpreso ao ouvir toda plateia, cantando a uma só voz em um país que não se fala inglês, os versos da música Love of  My Life.

No vídeo abaixo, que já tem quase 94 milhões de visualizações, Freddie Mercury canta um dos maiores sucessos do Queen, “We Are The Champions”:

GILBERTO GIL – “AQUELE ABRAÇO”

Neste sábado, por conta do Dia Nacional da Consciência Negra, estou reproduzindo notícia do portal Brasil Atual sobre a eleição de Gilberto Gil para a Academia Brasileira de Letras, onde ele – acompanhado por Fernanda Montenegro, também recém-eleita – já tomou seu primeiro chá ontem, sexta-feira.

Alguns textos afirmam que Gilberto Gil seria o segundo negro em toda a história da ABL (o primeiro foi Machado de Assis), mas, segundo a notícia abaixo, a Academia conta, atualmente, com outro negro, o professor Domício Proença Filho. Eis a notícia:

O compositor e cantor baiano Gilberto Gil foi eleito na quinta-feira (11) o mais novo imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL). Ministro da Cultura de 2003 a 2008, durante o governo Lula, o artista é um dos principais nomes do chamado movimento tropicalista, que representou uma revolução na música e na estética popular brasileira nos anos 1960.

Gil ocupará a cadeira de número 20, cujo patrono é o romancista Joaquim Manuel de Macedo, autor do clássico A Moreninha. Ao lado do professor e pesquisador da língua portuguesa Domício Proença Filho, o ícone da MPB será um dos dois representantes negros na entidade, que tem sede no Palácio Petit Trianon do Brasil, no centro da cidade do Rio de Janeiro.

Gilberto Gil deve assumir o posto na ABL em março de 2022. A cadeira 20 estava ocupada pelo acadêmico e jornalista Murilo Melo Filho, que morreu em maio de 2020.

A cadeira reservada ao novo imortal das letras do país já pertenceu também ao general Aurélio de Lyra Tavares (1905/1998). Ele foi ministro do Exército durante o período da ditadura civil-militar, da qual Gil foi vítima. Lyra assinou o Ato Institucional número 5, de 13 de dezembro de 1968, que piorou ainda mais a situação dos direitos humanos e a perseguição a intelectuais, ativistas e artistas.

Gil ficou preso de dezembro de 1968 a fevereiro de 1969. Após ser solto, seguiu confinado em sua casa até que, em julho, se exilou com o também cantor e compositor baiano Caetano Veloso em Londres. Nesse período, compôs Aquele Abraço, uma de suas obras mais conhecidas. A letra é uma espécie de hino de despedida do Brasil. No famoso verso “alô, alô, Realengo”, o artista cita o quartel em que esteve preso.

O vídeo é do show Acústico MTV, gravado em 1994:

NANDO REIS E SEBASTIÃO REIS – “RESPOSTA”

“Resposta” é o nome de uma das mais famosas músicas da cantora e compositora Maysa Matarazzo, aliás, Maysa Monjardim. Ela não gostava de ser chamada pelo sobrenome do ex-marido, o ricaço André Matarazzo, e preferia o sobrenome de solteira.

Outro que também gosta de usar esse sobrenome e não o do pai, é o diretor de cinema e de novelas da Globo, Jayme Monjardim, filho de Maysa e de André Matarazzo, um casamento que não durou muito.

“Resposta” é também o nome de uma música composta pelo mineiro Samuel Rosa, do Skank, e do paulista Nando Reis, ex-Titãs. Samuel é o autor da melodia, que ele mandou para Nando colocar a letra.

No caso de Maysa, “Resposta” é uma resposta àqueles que criticavam seu modo de vida um tanto quanto conturbado, marcado por muitos amores, brigas, álcool, cigarros, depressão, calmantes e até tentativas de suicídio.

Em um trecho da letra, ela diz que “eu não vou me importar com a maldade de quem nada sabe e, se alguém interessa saber, sou bem feliz assim, muito mais do que quem já falou ou vai falar de mim”. De maneira musical, Maysa mandou os críticos cuidarem de suas próprias vidas.

No caso de Nando Reis, “Resposta” foi a forma dele pedir uma resposta (que nunca veio) para o fim de um namoro. E o namoro era com ninguém menos que a Marisa Monte. Quando escreveu a música, Nando parecia um pouco inconformado com o fim do romance, mas agora ele já admite que pisou na bola com Marisa.

Nando não diz o que aconteceu, mas já deixou transparecer, em entrevistas, que a culpa por Marisa ter colocado um ponto final no relacionamento foi dele. De qualquer forma, não obstante o fim do namoro, Nando e Marisa continuaram amigos.

A música de Samuel e Nando foi lançada em 1998, no quarto álbum do Skank e trouxe uma sonoridade diferente daquela a que os fãs do grupo estavam acostumados, mas ela logo caiu no gosto do público e acabou se tornando parte da identidade da banda.

O detalhe curioso é que Samuel Rosa não sabia que a letra da música que ele cantava tinha sido inspirada por Marisa Monte, o que ele só ficou sabendo anos depois. Outro detalhe é que Marisa Monte foi a primeira cantora a gravar músicas de Nando Reis, que, até então, só compunha para os Titãs.

A música de Nando foi regravada por Milton Nascimento e Lô Borges, no CD “Crooner”, de 1999. No vídeo, Nando e o filho dele, Sebastião Reis, cantam “Resposta”

DJAVAN – “OCEANO”

Não parece, mas a música “Oceano”, um dos maiores sucessos do alagoano Djavan, já completou 32 anos. Lançada em 1989, foi uma das músicas mais tocadas naquele ano, depois de incluída na trilha sonora da telelágrimas global “Top Model”, onde embalava as venturas e desventuras do casal interpretado por Malu Mader e Taumaturgo Ferreira.

Segundo explicou Djavan em entrevista recente (aqui), “Oceano” nasceu de uma ideia sua de compor uma música em espanhol, com características do ritmo flamenco. Depois de algum tempo, ele acabou desistindo da ideia, mas deixou a melodia gravada em uma fita K7, que foi abandonada em uma gaveta.

Cinco anos depois, Djavan fazia um tour pelos Estados Unidos, quando recebeu uma ligação da filha, Flávia Virgínia. Em meio à conversa, Flávia disse que tinha remexido nas fitas do pai e encontrou uma música que, na opinião dela, era muito bonita e devia ser aproveitada por Djavan.

O pai, curioso, pediu para ouvir a música por telefone mesmo. Depois de ouvir a preciosidade engavetada, ele concordou com a filha quanto à beleza da música. De volta ao Brasil, Djavan tratou de finalizar a melodia e escrever uma nova letra, em português, preservando, no entanto, a influência do flamenco.

“Oceano” tem inúmeras regravações, o que demonstra sua importância. Emílio Santiago, Leila Pinheiro, Toots Thielemans, Boca Livre, MPB4 e Quarteto em Cy, Caetano Veloso, Ângela Maria, Tim Maia e, mais recentemente, o trio Melim, são alguns que gravaram releituras da música.

O próprio Djavan já a regravou em espanhol e inglês. E o cantante Zucchero, acompanhado por Sérgio Mendes, também fez a sua versão – “Un Oceano di Silenzi” – em italiano. Dito isso, vamos ao vídeo com Djavan interpretando “Oceano”:

ITAMARATY FEZ ALGO RARO NO GOVERNO BOLSONARO: LAMENTAR A MORTE DE UM ARTISTA

Se o Ernesto Araújo ainda fosse o chefe do Itamaraty, certamente não teríamos nenhum lamento pela perda de Nelson Freire. E a bem da verdade, Bolsonaro lamentou as mortes dos MC’s Reaça e Kevin, dois artistas que deixaram um extraordinário legado à nossa cultura.

Da coluna do Guilherme Amado, no Metrópoles:

Itamaraty fez nesta segunda-feira (1/11) algo raro neste governo: lamentar a morte de um artista.

O ministério publicou um comunicado para expressar pesar sobre o pianista Nelson Freire, morto nesta madrugada no Rio de Janeiro.

Na nota, o Itamaraty afirma que Freire foi um dos mais destacados pianistas de sua geração e que engrandeceu a cultura brasileira no exterior.

A pasta também diz que o pianista se apresentou com as maiores orquestras do mundo e que muitas das apresentações tiveram o apoio do Itamaraty.

A manifestação de pesar por artistas, comum em governos anteriores, muitas vezes foi ignorada no governo Bolsonaro, que silenciou, por exemplo, sobre as mortes de nomes como Aldir Blanc e João Gilberto.

SEIS MÚSICAS CENSURADAS PELA DITADURA MILITAR

No interessante vídeo abaixo, Júnior Lima e Bruno Bock, os dois rapazes da foto acima, falam sobre seis músicas que foram censuradas pela ditadura militar.

Júnior Lima, vocês sabem, é o filho roqueiro do Xororó e irmão da delicada Sandy. E o Bruno Bock é um youtuber que, segundo as revistas de fofoca, teria trocado beijos com a Suzane Von Richthofen, quando ambos eram adolescentes.

A censura do regime militar usou sua tesoura em mais de 500 músicas, mas, de vez em quando, se mostrava um tanto distraída. Os censores não conseguiram ver, em princípio, nada demais em “Apesar de Você”, do Chico, e só foram perceber que se tratava de uma música de protesto depois que ela tinha virado sucesso no rádio e um jornal comentou que os versos se referiam ao general Médici.

Da mesma forma, os censores não perceberam que “Pesadelo”, do Maurício Tapajós e do Paulo César Pinheiro, era uma música contestadora e a liberaram sem cortes. Um dos versos dessa música – “você corta um verso, eu escrevo outro…” fazia clara referência à censura e, há uns três ou quatro anos, virou nome de um show do MPB4, em que o grupo canta músicas censuradas.

Em compensação, outra música do Paulo César Pinheiro – “Cordilheira” – composta com a Sueli Costa para um disco do Erasmo Carlos, foi censurada sem que os censores dessem alguma explicação. Essa música – que é uma das preferidas do amigo Niltinho Suetugo – foi gravada posteriormente pela Simone.

Mas, vamos ao vídeo:

    

ZABELÊ E CARLINHOS BROWN – “PRETA PRETINHA”

Lançada em 1972, no antológico disco “Acabou Chorare”, a música Preta Pretinha – escrita pelo Luiz Galvão e musicada pelo Moraes Moreira – foi, para muitos, o maior sucesso dos Novos Baianos.

Cheia de frases aparentemente desconexas, como algumas canções do Djavan ou do Jorge Benjor, “Preta Pretinha” parece um amontoado de palavras jogadas ao vento, sem muito sentido e com uma melodia bem simples. Mas não é bem assim.

“Preta Pretinha”, por incrível que possa parecer, foi inspirada em um amor mal sucedido, vivido pelo compositor Luiz Galvão e uma jovem niteroiense. Em um livro, Galvão conta que a jovem prometeu que, se ele fosse a Niterói conhecer o pai da amada, ela iria morar com o compositor no apartamento coletivo dos Novos Baianos.

É aí que entra a barca citada na música. “Pegamos a barca, conheci o pai dela, mas, na volta, ela se arrependeu e voltou para o seu namorado. À noite escrevi a letra sob o impacto desse insucesso amoroso”, conta Galvão no livro.

Segundo o compositor, o subconsciente lhe trouxe, ainda, lembranças de outras namoradas. “Só, somente só”, por exemplo, é uma menção a Socorrinho, uma antiga namorada, ainda dos tempos de quando Galvão morava em Juazeiro.

“Preta Pretinha” já foi regravada algumas vezes por Moraes Moreira e por outros artistas. Foi também, tema para a propaganda de uma rede de lojas de perfume, o que proporcionou a Galvão a compra de um sítio com o dinheiro dos direitos autorais recebidos.  

No vídeo abaixo, uma releitura recente do velho sucesso dos Novos Baianos, com a Zabelê – uma das filhas de nome esquisito da Baby Consuelo e do Pepeu Gomes – e o baiano nem tão novo assim, Carlinhos Brown.

TOM JOBIM E ROBERTO CARLOS – “LÍGIA”

Dado que ando um pouco ocupado vendo uma série mexicana da Netflix, hoje vou reproduzir a história da música “Lígia” – que muita gente pensa ser do Chico Buarque, mas que foi composta pelo Tom Jobim – contada pela musa inspiradora da canção, a professora Lygia Marina de Moraes, em texto retirado do facebook:

“Conheci Tom em uma tarde de chuva. O bar Veloso estava vazio, era junho e fazia frio. Eu e uma amiga, Cecília, nos sentamos na varanda e vimos o Tom conversando com o Paulo Góes (fotógrafo). Nós duas éramos professoras no colégio Brasileiro de Almeida, na Lagoa, e depois das aulas habitualmente íamos tomar um chope.

Ao ver as duas moças sozinhas, o papo começou e os dois acabaram se sentando na nossa mesa. A mãe de Cecília, costureira, fazia roupas para Thereza, a primeira mulher do Tom. Isso facilitou a aproximação. Quando contei ao Tom que era professora de sua filha Beth, que na época tinha 11 anos, ele teve um ataque de riso.

Naquela mesma noite, ele tinha prometido dar uma entrevista a Clarice Lispector para a revista Manchete, e convidou a mim e a Cecília para irmos com ele até a casa dela, no Leme. Na hora, eu disse: ‘Perfeitamente, estamos aí’.

Fomos no fusquinha azul-claro do Tom. Eu usava uma saia de lã e um suéter de caxemira. Quando Clarice abriu a porta, Tom, abraçado comigo e com Cecília, disse: ‘Trouxe minhas amigas.’. Ela fez cara de mau humor. Acho que imaginou que teria Tom somente para ela.

O clima piorou e Clarice ficou mais furiosa quando pediu a Tom que fizesse um poema para ela, como Vinicius [de Moraes] teria feito em entrevista anterior, e ele disse: ‘Não sou poeta. Se tivesse um violão…’. Mas aí pegou um bloco de papel-jornal e escreveu um poema para mim, que tenho guardado até hoje:

‘Teus olhos verdes são maiores que o mar/ Se um dia eu fosse tão forte quanto você/ Eu te desprezaria e viveria no espaço/ Ou talvez então eu te amasse/ Ai que saudades me dá/ Da vida que eu nunca tive’, e assinou: A.C.J. Saindo de lá, Tom me levou em casa.

Nos despedimos no carro, com um beijinho no rosto. Fiquei nervosíssima, mas parou ali. Tom era casado. Aquela carona foi nosso único encontro a sós. A música fala de tudo o que não aconteceu: o cinema, o passeio na praia… Depois disso nos encontramos muitas vezes, mas sempre em grupo.

Logo me casei com o cineasta Fernando Amaral e entrei para a turma. Vivi o auge de Ipanema. Conheci Leila Diniz, tivemos filhos pequenos na mesma época. Após quatro anos de casada e um filho, me separei. Depois me casei com o escritor Fernando Sabino. Em 1973, acho que Tom não sabia que eu estava casada com ele e ligou para o Fernando pedindo meu telefone.

Meu marido fez uma sacanagem: deu um número errado. Em seguida, ligou para o telefone que tinha dado e avisou: ‘O Tom Jobim vai ligar aí procurando uma Lygia, mas o telefone é tal’, e deu outro número errado.

Quando cheguei em casa, Fernando estava às gargalhadas. Os amigos ficaram sabendo dessa história, inclusive o Tom. Talvez daí tenha surgido a frase na música: ‘Desliguei, foi engano/ seu nome eu não sei…’

Um belo dia, estava sozinha em casa quando ouvi no rádio pela primeira vez o Chico cantando ‘Lígia’. Fui correndo comprar o disco. Na hora, me vi na letra. Ser homenageada já é maravilhoso, e ainda mais pelo Tom, com uma música linda e sofisticada. É uma glória!

Durante os 19 anos em que fui casada, Tom evitou falar a respeito. Quando eu já estava separada, Tom me encontrou por acaso na Cobal e falou: ‘Está chegando minha musa!’. Aí liberou geral.

Até hoje, em cada boteco que eu entro tocam ‘Lígia’. Faz parte do meu show. Virei imortal. Muita gente me cobra o fato de nunca ter acontecido nada entre a gente.

Mas será que não foi melhor ter ficado na fantasia? Talvez tivesse de ser essa a história: eu virar musa, entrar num bar e eternamente me lembrar do Tom, cheio de charme.”

No vídeo abaixo, “Lígia” é cantada por Tom e Roberto Carlos. Reparem que, nessa interpretação, Tom canta alguns versos inéditos: 

PEDRO MARIANO E ELIS REGINA – “CASA NO CAMPO”

Cantora e fotógrafa, Lizzie Bravo – a moça da foto – se chamava Elizabeth Villas Boas Bravo e tinha apenas 16 anos quando foi para a Inglaterra, em 1967. Beatlemaníaca, ela passava horas em frente ao prédio onde funcionava o famoso estúdio de Abbey Road, em Londres, na expectativa de ver os seus ídolos.

Foi assim que, um ano depois de sua chegada a Londres, ela não apenas conseguiu conhecer de perto os quatro rapazes, como experimentou a sensação indescritível de cantar com eles, fazendo backing vocal em uma gravação.

Sucedeu assim: num domingo gelado da capital inglesa, Lizzie e outras garotas que, como ela, amavam os Beatles, estavam dentro do prédio quando surgiu ninguém menos que Paul McCartney, perguntando se alguma delas alcançava uma nota aguda.

Lizzie se candidatou e, juntamente com uma garota inglesa, participou dos vocais na gravação de “Across the Universe”, versão que permaneceu arquivada pelos Beatles e só foi aparecer dez anos depois, em 1978, na coletânea Rarities

A essa altura, Lizzie – a única garota brasileira que gravou com os Beatles – já tinha voltado ao Brasil e juntado as escovas de dentes com o compositor Zé Rodrix, com quem foi casada entre 1970 e 1972. E foi durante o casamento, em 1971, que Zé Rodrix, inspirado pelas bucólicas paisagens rurais que observara durante um viagem de trem a Goiânia, compôs “Casa no Campo”.

Conta a lenda que o verso “eu quero a esperança de óculos e um filho de cuca legal” foi escrito para Lizzie. Elis Regina conheceu essa música em um festival, do qual ela era jurada, e logo se interessou por gravá-la. A versão de Elis, lançada em 1972, alcançou um sucesso tão estrondoso que não era esperado nem por Zé Rodrix.

Lizzie (apelido inspirado na música “Dizzy, Miss Lizzy”, gravada pelos Beatles) morreu na segunda-feira, 04/10, aos 70 anos, vítima de problemas cardíacos, deixando sua história com John, Paul, George e Ringo eternizada nas páginas do livro “Do Rio a Abbey Road”, lançado em 2015.

Mas a história de Lizzie não inclui apenas os Beatles. Cantora de estúdio, ela emprestou sua voz para gravações de cantores como Djavan, Caetano Veloso, Elba Ramalho, Ivan Lins, Roberto Carlos, Maria Bethânia, Milton Nascimento, Alceu Valença, Alcione, Zé Ramalho e outros.

No vídeo abaixo, Pedro Mariano, um dos filhos de Elis Regina com o maestro César Camargo Mariano (Maria Rita é a outra filha), canta “Casa no Campo”, em homenagem à mãe.

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