Categoria: Música

BENITO DI PAULA – “RETALHOS DE CETIM”

Eu ainda nem tinha começado a pensar no vídeo musical que postaria neste sábado, quando recebi uma ligação do professor Paulo César Turazza, o flamenguista Ziquinho, que, como metade da cidade sabe, é fã de carteirinha do Benito di Paula.

Tão fã que batizou seu único filho com o nome de Benito. Infelizmente, Benito, o filho do Ziquinho faleceu há alguns anos em um acidente de moto. Benito, o original, ficou sabendo do falecimento do Benito jalesense e, em uma ocasião em que esteve em Santa Fé do Sul, chorou abraçado ao fã Ziquinho.

Em 2019, Benito di Paula também viveu o drama de perder um filho, mas, voltando ao telefonema do Ziquinho, o objetivo da ligação foi pedir que, neste sábado, eu o “presenteasse” com um post sobre o Benito.

Afinal de contas, hoje é o aniversário do Ziquinho e, por uma dessas coincidências inexplicáveis, é também o aniversário do Benito di Paula. E como um pedido do Ziquinho é uma ordem, peço licença ao professor José Antonio de Carvalho e ao meu oráculo Marco Antonio Polleto, para falar sobre o ídolo do nosso amigo flamenguista.

Nascido Uday Velozzo em Nova Friburgo(RJ), aos 28 de novembro de 1941, Benito está completando 79 anos neste sábado. O pai, um funcionário da Estação Leopoldina, tocava vários instrumentos (piano, bandolim, piano, etc), de modo que Uday e seus 12 irmãos cresceram em um ambiente musical. Pelo menos três deles – Ney, Jota e Ana Carolina Velozzo – também são músicos e compositores.

Uday começou a carreira tocando piano e cantando em bares e boates do Rio de Janeiro, mas foi em São Paulo que ele se tornou conhecido e ganhou o nome artístico de Benito di Paula. O primeiro disco gravado, em 1969, foi um compacto simples, com apenas duas músicas. O segundo, de 1970, também foi um compacto simples que tinha, num dos lados, “Retalhos de Cetim”.

O sucesso do segundo compacto convenceu a gravadora Copacabana a contratar Benito. Mas ao planejar o primeiro LP, a gravadora entendeu que Benito – ainda não muito conhecido – deveria gravar músicas de compositores conhecidos. Das 12 músicas do disco, lançado em 1971, apenas três eram dele.

Uma das músicas era a engajada “Apesar de Você”, do Chico Buarque, e, por conta dela, o disco de Benito foi censurado pelo regime militar. Além de ter o disco recolhido, Benito ainda teve que comparecer a um quartel para explicar a gravação de “Apesar de Você” e, por pouco, não foi preso.

Essa frustração não o acovardou. Três anos depois, casualmente, Benito cruzou, numa rua de São Paulo, com Geraldo Vandré – um Vandré delirante, transformado num trapo humano. A impressão dolorosa deu-lhe coragem para enfrentar novo risco. Compôs e gravou “Tributo a Um Rei Esquecido” em homenagem ao colega.

A censura, mais uma vez, proibiu tanto a divulgação, como a venda da música, por causa da letra escrita por Benito: “Ele foi um rei / E, brincou com a sorte /Hoje ele é nada / E, retrata a morte /Ele passou por mim, mudo e entristecido /Eu quis gritar seu nome / Não pude /Ele olhou pra parede. / Disse coisas lindas/ Disse um poema / Para um poste / Me veio lágrimas/ O que foi que fizeram com ele? / Não sei / Só sei que esse trapo, esse homem, foi um rei”.

Não obstante esses percalços iniciais por conta de “Apesar de Você” e “Tributo a Um Rei Esquecido” Benito foi em frente e, em 1979, gravou “A Banda do Povo”, uma composição sua em homenagem a Chico Buarque, de quem continuava fã. Mas, o início de carreira não foi, realmente, fácil para ele.

Benito introduziu o piano no samba e propôs um romantismo maior no ritmo que, futuramente, ficaria conhecido como samba-joia. A novidade foi rejeitada, na época, e só ganhou adeptos depois do sucesso de “Retalhos de Cetim”.

Consta que a composição “Argumento” (“Tá legal/Eu aceito o argumento/Mas não altere o samba tanto assim…”), do Paulinho da Viola, teria sido uma crítica ao samba-joia de Benito di Paula. Paulinho nunca confirmou isso publicamente, mas, de qualquer forma, a amizade de ambos – eles eram compadres – ficou temporariamente estremecida.

Benito nunca se considerou pianista. E seu maior sucesso, “Retalhos de Cetim”, foi, curiosamente, composto ao violão, quando ele ainda tocava nos bares, e, por algum inexplicável motivo, não foi incluída no primeiro disco do compositor, o compacto de 1969.

Incluída no segundo compacto, a música caiu de imediato no gosto popular e projetou o nome de Benito não apenas aqui no Brasil, mas também no exterior, onde “Retalhos de Cetim” ganhou gravações do guitarrista americano Charlie Byrd e da orquestra do maestro Paul Mauriat.

Muita coisa se poderia escrever sobre Benito, mas vou parando por aqui, não sem antes desejar um feliz aniversário a ele e ao seu fã número zero, o Ziquinho.

E, por alguma mudança no Youtube, eu não estou conseguindo postar diretamente o vídeo em que o Benito interpreta “Retalhos de Cetim” sem o piano, mas com a gaita do Rildo Hora. Convido os prezados leitores e as estimadas leitoras a acessarem-no aqui.

ALCIONE – “ESTRANHA LOUCURA”

Com quase 50 anos de carreira, Alcione, a Marrom, é uma das mais consagradas sambistas do Brasil e uma intérprete reconhecida por sua voz grave e inconfundível. A cantora preferida do meu amigo Tinhoso está completando 73 anos neste sábado, dia 21.

Antes do aniversário, Alcione voltou aos palcos com seus sucessos em seu primeiro show aberto ao público, o que não acontecia desde o início da pandemia do coronavírus. O evento aconteceu na quinta, dia 19, no Bar Alcione, a Casa da Marrom, recém-inaugurado no Casa Shopping, na Barra da Tijuca.

Em homenagem à artista, o Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), dono de um dos maiores bancos de dados da América Latina, fez um levantamento das músicas gravadas por ela mais tocadas nos últimos cinco anos.

Alcione tem 1.272 gravações cadastradas no banco de dados do Ecad. De todas, a mais tocada no Brasil nos últimos cinco anos foi “Meu ébano”, canção lançada há 15 anos e que fez parte do vigésimo sétimo álbum de estúdio da cantora, chamado “Uma Nova Paixão”. 

Alcione Dias Nazareth nasceu em São Luís, Maranhão no dia 21 de novembro de 1947. O nome de batismo foi ideia do pai, inspirado na personagem Alcione, a protagonista do romance espírita “Renúncia”, psicografado por Chico Xavier.

Foi o pai, que era maestro da banda da Polícia Militar do Maranhão e professor de música, quem ensinou Alcione a tocar alguns instrumentos de sopro, como trompete e clarinete.

Aos 18 anos de idade formou-se como professora primária na Escola de Curso Normal. Lecionou por dois anos, mas foi demitida aos 20 anos, por ensinar a seus alunos como se tocava trompete, querendo passar o aprendizado que recebeu, mas isso não agradou a direção da escola, que na época era muito rígida.

Depois disso, Alcione se mudou para o Rio de Janeiro, para tentar a carreira artística. As primeiras aparições foram no programa A Grande Chance, de Flávio Cavalcanti.

Alcione foi criada no catolicismo, mas converteu-se ao espiritismo há alguns anos, depois de ter sido curada de problemas nas cordas vocais. Com um tumor na laringe, a medicina a avisou de que só poderia cantar por mais um ano. Ela então se submeteu a uma operação espírita e, para surpresa dos médicos, se curou e pôde continuar cantando normalmente.

No vídeo, Alcione canta um de seus grandes sucessos – “Estranha Loucura” – que, segundo o levantamento do Ecad, está entre as cinco músicas de Alcione mais tocadas nos últimos cinco anos. Veja aqui.

“A RITA” – GILBERTO GIL

Lançado em 1966, no formato vinil, “Chico Buarque de Hollanda” foi o álbum de estreia de Chico. Com 12 músicas, entre elas “A Banda”, “Tem Mais Samba” e “Madalena Foi Pro Mar”, o álbum já mostrava que estávamos diante de um grande compositor, à época com apenas 22 anos.

Quarenta e sete anos depois, a partir de 2013, a capa daquele disco, que exibe dois chicos – o primeiro, alegre e sorridente, e o segundo com expressão triste e chateada – se transformou em inspiração para memes na internet, inclusive no exterior.

O próprio Chico aderiu à brincadeira, ao inaugurar seu perfil no Instagram, em julho de 2017, como se vê acima. Num dos memes mais famosos, Chico – certamente o compositor que mais entende a alma feminina – foi transformado em mulher, como se pode ver ao lado.

A história da capa? Chico queria, para a capa do disco, uma foto que transmitisse a ideia de que ele era um compositor sério. De seu lado, a gravadora RGE preferia que ele aparecesse sorrindo.

“Nós estávamos num estúdio fotográfico e eu queria tirar uma foto mais séria, eu queria me impor como um compositor sério e tal. E eles achavam que eu ficava melhor quando sorria. Então, tiramos várias fotos, sorrindo e sério. Quando vi a capa pronta, percebi que eles fizeram a vontade deles e a minha com essa capa absurda que virou meme”, contou o compositor em entrevista recente.

Capa e memes à parte, o disco de estreia de Chico incluía uma de suas canções mais conhecidas: “A Rita”. Curiosamente, naquela mesma época, os Beatles lançaram “Lovely Rita”, mas a Rita do Chico era muito melhor.

Segundo o jornalista e escritor Ruy Castro, a Rita da dupla Lennon/McCartney era uma solteirona insossa, enquanto a Rita do Chico era uma mulher de caráter, forte e decidida. “A Rita dos Beatles era uma pata-choca encalhada. A do Chico era safa, despachada e capaz de uma atitude”, resume Ruy.

Fiquemos, então, com “A Rita”, do Chico, interpretada por Gilberto Gil:

ZÉLIA DUNCAN – “JANELAS ABERTAS”

Pretendo ver um filme ainda neste sábado, com uma de minhas atrizes favoritas – a Rachel McAdams –  de modo que não vou escrever muito sobre “Janelas Abertas”, obra-prima de Tom Jobim e Vinícius de Moraes.

Eu quase não não toco essa música lá no Brasil & Cia, o programa que apresento todos os domingos na Regional FM, mas eu a ouço muito aqui em casa. E com fone de ouvido, que é como se deve ouvir as boas canções. Agora, por exemplo, enquanto escrevo, estou ouvindo o Milton e sua versão definitiva da maravilhosa “Beatriz”

A bem da verdade, nós temos duas “Janelas Abertas”. A do Tom e do Vinícius e a do Caetano Veloso, que é a número 2. Nas duas canções os compositores deixaram para os versos finais a explicação do porquê – me perdoem se estiver errado; eu esqueci a regra dos porquês – eles optaram por deixar as janelas abertas.

Na canção de Tom e Vinícius, o objetivo de abrir as janelas era permitir “que o sol possa vir iluminar nosso amor”. Já o Caetano diz que “prefiro abrir as janelas prá que entrem todos os insetos”. Deve ser porque ele não conhece os pernilongos aqui de Jales.

“Janelas Abertas” (a do Tom e do Vinícius) já foi gravada por cantoras da estirpe de Áurea Martins, Gal Costa, Nana Caymmi e a Elizeth Cardoso, esta última divinamente acompanhada pelo mágico violão sete cordas do saudoso Raphael Rabello. Todas lindíssimas. E de quebra tem também uma versão muito bonita do Quarteto em Cy, que ouço frequentemente.

Eu escolhi, porém, a versão da companheira Zélia Duncan (ela detesta o Bozo), lançada no CD “Eu Me Transformo em Outras”, de 2004. É uma bonita versão mas não se pode dizer que esteja no mesmo nível das outras citadas. Zélia inclui em sua releitura, como música incidental, o clássico “El Dia Que Me Quieras”, do Carlos Gardel.

Confiram o vídeo da Zélia. O rapaz da gaita se chama Gabriel Grossi:  

ROBERTO MENESCAL E AMIGOS JAPONESES – “O BARQUINHO”

Nesse domingo, 25, Roberto Menescal – um dos pais da bossa nova – estará completando 83 anos. Para comemorar a data, ele convidou alguns artistas japoneses para cantar “O Barquinho”, uma de suas mais famosas composições.

O prezado leitor e a estimada leitora poderão estar se perguntando: mas por que, afinal, Menescal deu preferência aos japas? Simples! O Japão é um dos países que mais valoriza a Bossa Nova, mais até do que o Brasil

E mais: em entrevista à GloboNews, no mesmo dia em que o rei Pelé fazia 80 anos e “O Barquinho” comemorava 60, Menescal disse que o Japão é a sua segunda pátria, onde ele já esteve mais de 30 vezes, para apresentações.

Composta em 1960, os acordes da música “O Barquinho” surgiram durante um passeio de barco que Menescal e alguns amigos – Ronaldo Bôscoli entre eles – fizeram pelo mar de Arraial do Cabo e Cabo Frio.

No meio do passeio, a embarcação pifou e, enquanto aguardava o resgate, Menescal, que sempre carregava seu violão, foi dedilhando a melodia que, dias mais tarde, ganhou letra do parceiro Bôscoli.

Há quem diga que a primeira gravação poderia ter sido de Nara Leão, à época a namorada de Bôscoli, um sujeito namorador que, tempos depois, viria a ser o primeiro marido de Elis Regina e pai de João Marcelo Bôscoli, o primeiro filho de Elis.

A primeira gravação, no entanto, não foi de Nara, mas de João Gilberto, com arranjo do maestro Tom Jobim. No mesmo ano, “O Barquinho” foi regravada por Pery Ribeiro e pela Maysa Matarazzo. Por sinal, a versão de Maysa fez mais sucesso que a de João Gilberto.

Na mesma entrevista concedida à GloboNews, Menescal disse que “O Barquinho” já foi regravada mais de 2.000 vezes. Confiram, no clipe abaixo, lançado na quinta-feira, 22, a versão dos japoneses cantando em português.  

KLEITON & KLEDIR E MPB4 – “PAZ E AMOR”

Nos tempos complicados que estamos vivendo, uma canção que fala de paz e amor. O texto é do crítico musical Mauro Ferreira, do G1:

Em 1980, egressos do grupo gaúcho Almôndegas, os irmãos Kleiton Ramil e Kledir Ramil entraram em cena como a dupla Kleiton & Kledir, conquistando instantaneamente o Brasil com som que evocava referências musicais do sul do país com modernidade pop.

Nessa viagem interestadual, a canção Vira virou – composição de autoria de Kleiton Ramil – rompeu as fronteiras do Brasil e fez escala em Portugal, sendo gravada pela dupla e pelo grupo MPB4 em discos editados simultaneamente. Até por isso, mas não somente por isso, o encontro de Kleiton & Kledir com o MPB4 na gravação da inédita canção Paz e amor já soaria especialmente relevante.

Só que, além de relevante, o singlePaz e amor é expressivo pela beleza dessa canção acalentadora. Composição de autoria de Kleiton Ramil e Kledir Ramil, a canção Paz e amor propaga ideais de esperança e fraternidade, reacendendo a crença no “velho sonho” de que fala a letra escrita sem pieguice e com fé no poder restaurador da humanidade.

Os versos da canção convidam à reflexão. “É… a gente errou e entrou na contramão / E desinventou a civilização / Ah… onde foi que a gente se perdeu? / Não sei dizer o que aconteceu / Só sei que dá pra achar a solução / Encontrar a luz no frio da escuridão / E acender a vela, o fogo da paixão”, propõem a dupla e o quarteto a seis vozes, entrelaçadas harmonicamente na gravação.

Bem valorizado na mixagem de Ricardo Pinto, o envolvente arranjo vocal de Kleiton Ramil potencializa a beleza da canção Paz e amor, disponível em single desde sexta-feira, 9 de outubro, em edição da gravadora Biscoito Fino.

E o fato é que tanto Aquiles, Dalmo Medeiros, Miltinho e Paulo Magaluti Pauleira quanto Kleiton Ramil e Kledir Ramil há tempos não apresentavam música inédita à altura dos históricos da dupla e do MPB4.

A força da canção Paz e amor está diretamente relacionada à turbulência do mundo atual – desarmonia enfatizada pela pandemia, mas já latente antes da disseminação do coronavírus – mas, como música, transcende esse momento ruim da humanidade.

LUCY ALVES E SINFÔNICA PETROBRAS – “FEIRA DE MANGAIO”

Eu já escrevi aqui neste modesto blog sobre a cantora, atriz e multi-instrumentista paraibana Lucyane Pereira Alves, ou simplesmente Lucy Alves.

Filha de família musical, ela formou com duas irmãs – Larissa e Lyzete -, o pai José Hilton e a mãe Maria José, o grupo Clã Brasil. Já nessa época, quando ela tinha 16 anos, a música “Feira de Mangaio” era uma das mais presentes no repertório do grupo.

“Feira de Mangaio” é um baião/forró composto pelo sergipano Severino Dias de Oliveira, conhecido como Sivuca, e por sua esposa, Glorinha Gadelha (foto). Sivuca foi o primeiro a gravá-la.

Em 1979, regravada por Clara Nunes no LP “Esperança”, essa música alcançou enorme sucesso. Trata-se de um clássico da música nordestina, que apresenta os produtos que são comercializados pelos mangaieiros nas feiras livres.

Segundo texto do Museu da Canção, “Feira de Mangaio” foi composta em New York, quando o casal Sivuca e Glorinha morava nos Estados Unidos. E mais: a letra da canção, de autoria de Glorinha, foi finalizada num McDonald’s da Sétima Avenida.

Foi a própria compositora quem contou, em entrevista: “Essa música começou a sair de dentro da minha alma no meio de uma aula de inglês. Aí, dentro do metrô, ela continuou na minha cabeça. E quando cheguei no McDonald’s, terminei a letra”.

Embora tenha gravado alguns discos, Glorinha – paraibana, como Lucy Alves – nunca se considerou uma cantora, preferindo ser reconhecida como compositora.

No vídeo, Lucy Alves, acompanhada pela Orquestra Sinfônica Petrobrás, interpreta “Feira de Mangaio”:

GRUPO MADALENA – “BRASIL PANDEIRO”

Hoje vou apresentar aos prezados leitores e às estimadas leitoras – caso não conheçam – um grupo musical nascido na Vila Madalena, um bairro charmoso e simpático de São Paulo, onde moravam todos os integrantes.

O som agradável dos rapazes e a voz bonita da cantora Lívia Bertini me foram indicados por um amigo. Quem acompanha o programa “Sr Brasil”, com o imprescindível Rolando Boldrin, na TV Cultura, já deve tê-los visto cantando.

O nome do quinteto – Grupo Madalena – é, naturalmente, uma homenagem ao bairro onde tudo começou, por volta de 2005. O grupo surgiu do desejo de seus integrantes de manter viva a poesia de grandes compositores brasileiros de samba, chorinho e bossa nova, alguns deles já meio que esquecidos.

O primeiro CD do grupo foi lançado em 2013, com clássicos da música brasileira e também com composições dos integrantes da banda. Já no segundo CD, lançado recentemente, todas as letras foram escritas por uma poetisa – Lúcia Tina – que trata a temática feminina de uma forma diferente.

Durante a pandemia, o Grupo Madalena fez uma interessante releitura de “Smile”, do Charles Chaplin, que pode ser vista aqui. E, se você viu o vídeo, deve ter reparado a inclusão, ao final, de um trecho de “O Bêbado e a Equilibrista”. Não foi por acaso que o Grupo Madalena fez isso: a famosa canção de Aldir Blanc e João Bosco, que se tornou o hino da Anistia, foi inspirada em Chaplin.

Por sinal, muita gente imagina que Chaplin é o único autor de “Smile”. Na verdade, ele é o autor apenas da melodia, que foi feita para o histórico filme “Moderns Times” (“Tempos Modernos”), de 1936. A música só ganhou uma letra 18 anos depois, em 1954, escrita pela dupla John Turner e Geoffrey Parsons.

No Brasil, “Smile” ganhou uma versão (“Sorri”) do compositor Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha, também conhecido – sabe-se lá por que – como João de Barro. Ele era especialista em fazer letras para grandes melodias. Em 1936, João de Barro fez os conhecidíssimos versos de “Carinhoso”, cuja melodia Pixinguinha tinha composto 20 anos antes, em 1916.

Voltando ao Grupo Madalena, vejam, no vídeo abaixo, a releitura do quinteto para o clássico “Brasil Pandeiro”, do Assis Valente:

CRISTOVÃO BASTOS E MÔNICA SALMASO – “TODO O SENTIMENTO”

Se tudo correr bem, nesse domingo o maestro, pianista e compositor Cristovão Bastos fará uma participação especial no Brasil & Cia, o programa que apresento aos domingos, na Regional FM, das 10 às 14 horas, com o melhor da MPB.

De acordo com o que foi combinado através de um amigo comum – o jalesense radicado em Ourinhos, Luiz Carlos Seixas – o maestro irá falar sobre o lançamento de seu novo álbum – o CD “Cristovão Bastos e Rogério Caetano” – em que ele e o violonista Rogério Caetano interpretam músicas compostas por eles e por outros parceiros.

Rogério não é o primeiro violonista com quem Cristovão grava um álbum instrumental. Aqui na minha estante, tenho entre meus preferidos o CD “Bons Encontros”, de 1992, no qual Cristovão e o violonista Marco Pereira – outro virtuose do violão – interpretam vários clássicos de Ary Barroso e Noel Rosa. O CD “Bons Encontros” rendeu a eles o Prêmio Sharp de Melhor Disco Instrumental daquele ano.

Em mais de trinta anos de carreira, o maestro já compôs com parceiros como Chico Buarque, Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro, Abel Silva, Paulinho da Viola e Elton Medeiros, entre outros. É dele as melodias de “Suave Veneno” e “Resposta ao Tempo”, com letras de Aldir Blanc, sucessos de Nana Caymmi.

Com Abel Silva, ele compôs, por exemplo, “Raios de Luz”, música lindíssima que a Simone já gravou duas vezes. De tão bonita, “Raios de Luz” ganhou uma versão em inglês – “Let’s start rigth now” – gravada simplesmente por Barbra Streisand, em disco de 1999.

De seu lado, Rogério Caetano, violinista e compositor brasiliense, é uma referência do violão de 7 cordas de aço. Já gravou com artistas como Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Beth Carvalho, Caetano Veloso, Monarco, D. Ivone Lara, Maria Bethania, Nana Caymmi, Ivan Lins, Yamandú Costa e Hamilton de Holanda, entre vários outros.

Cristovão e Rogério se conheceram na Escola de Música de Brasília, durante um curso de verão no qual ambos davam aulas, e acabaram tocando juntos pela primeira vez. “A gente teve uma empatia muito grande, tanto musical quanto pessoal. A partir disso, a gente sempre esteve próximo, em contato. Temos uma amizade grande, respeito e admiração mútua”, conta Rogério.

O CD que estão lançando tem 11 músicas, cinco delas compostas por Rogério e as outras seis por Cristóvão. Das seis músicas de Cristovão, duas foram compostas em parceria com Paulinho da Viola e uma terceira – “Choro Saudoso” – com Paulo César Pinheiro.

“Choro Saudoso” é uma homenagem ao violonista Raphael Rabello, que faleceu em abril de 1995, aos 32 anos. Raphael que era cunhado de Paulinho da Viola (casado com Lila Rabello) e de Paulo César Pinheiro (casado com Luciana Rabello), foi fonte de inspiração e a principal referência para Rogério Caetano.

A obra-prima de Cristovão Bastos é “Todo o Sentimento”, que ganhou uma das letras mais inspiradas de Chico Buarque. Eleita uma das dez melhores da obra de Chico, essa música já foi regravada por Elizeth Cardoso, Maria Betânia, Maria Creuza, Nana Caymmi, Elba Ramalho e Verônica Sabino, entre outras grandes cantoras.

Eu já postei “Todo o Sentimento” duas vezes aqui neste modesto blog, em versões da cantora Márcia Tauil e do grupo Mulheres de Hollanda, ambas acompanhadas pelo piano do maestro Cristovão Bastos. Estou postando uma terceira versão – e ainda há tantas a postar -, desta vez com a afinadíssima Mônica Salmaso, uma cantora pouco tocada em nossas emissoras de rádio, mas respeitada pelos grandes compositores e pelos melhores músicos do país.

Por sinal, uma das melhores coisas deste complicado ano de 2020, é a série de gravações feitas por Mônica, durante a pandemia, com convidados como Chico Buarque (veja aqui a felicidade do Chico cantando com ela), Zélia Duncan, João Bosco, Chico César, Hamilton de Hollanda, Yamandu Costa e o próprio Cristovão Bastos.

Abaixo, o vídeo gravado em junho, com Mônica e o maestro:

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