A CRÔNICA DO PASCHOALINO – “Uma Caixinha de Surpresas”

O que você acha de morar num país onde existe apenas uma mulher para cada quatro homens? Esse é um dos assuntos da crônica do jalesense Paschoalino S. Azords, publicada no domingo pelo jornal O Debate, de Santa Cruz do Rio Pardo. Ei-la:

  Uma Caixinha de Surpresas

(para o botafoguense Paulo Aragão)

Se você acha que Deus estava de gozação quando te fez nascer brasileiro, imagina como deve se sentir o sujeito que vive no Qatar, o país escolhido pela Fifa para sediar a Copa do Mundo de Futebol em 2022.

Eu não entendo nada de futebol e nem sou capaz de apostar uma paçoca se alguém me desafiar a apontar com o dedo no mapa, aonde é mesmo que fica o Qatar. Mas, no calor da disputa pela Copa, nos bastidores dessa grande pelada intercontinental, a gente acaba sendo informado dos “podres” de cada país concorrente. Fazer o que?

(Tente se colocar na pele dos americanos e mexicanos encarregados de encontrar e escancarar os pontos fracos do Brasil desde quando nos candidatamos a país sede da Copa de 2014. Trabalho duro, ainda que bem remunerado. Quem sabe se assinando a revista Veja, os gringos não tivessem mais argumentos para convencer a Fifa a levar a próxima Copa para o lado de cima do Equador)

Pois foi graças a esse jogo sujo da contra-informação que tomei conhecimento de um nababesco emirado árabe, o Qatar. Fiquei sabendo, por exemplo, que naquele areião vive, em média, 1 mulher para cada 4 homens! Por extenso, como numa folha de cheque: no Qatar existe uma mulher para cada quatro homens!! E você ainda acha que a vida no Brasil está difícil???

Pois o Qatar desbancou, ninguém mais, ninguém menos, que o Japão na disputa pela Copa de 2022. Saco minha calculadora chinesa para subtrair de 2022 o presente 2011. Somo o resultado da operação à minha idade atual para ver se vale a pena prosseguir com esse raciocínio. Mesmo contra as evidências, acho que tenho alguma chance. Afinal: se o Niemeyer ainda pode entrar na concorrência pela construção dos estádios dessa Copa de Qatar, por que eu não posso também especular?

Você sabe, e o mundo inteiro sabe, o futebol é uma caixinha de surpresas. Pois uma dessas surpresas é que o futebol, em si, acabou faz tempo. Os gols do Fantástico, os uniformes com sabor de iogurte ou óleo lubrificante, o tira-teima, as torcidas organizadas, essa coisera toda rebaixou o futebol de uma forma geral. Os títulos vão se acumulando, acumulando, e a soma produz um efeito contrário quando os times entram em campo. Como aquela coleção de campeonatos conquistados pelo Schumacher que acabaram vulgarizando a Fórmula 1.

Sem falar na dificuldade de se pronunciar corretamente certos números ordinais. Não é por acaso que se diz Bento 16, e não Bento Décimo Sexto. João Paulo segundo é fácil, mas você já ouviu alguém dizer João Vigésimo Terceiro? E os títulos acumulados pelos grandes times, pelas seleções, vão por ai… Só aprendendo grego para saber quem é que está na frente.

O grande momento do futebol, indiscutivelmente, é a Copa do Mundo. Mas as últimas edições desse torneio tão celebrado entrarão para a história mais pelas aberrações do que pelo futebol propriamente apresentado. Chegamos ao ponto de ver um goleiro sendo eleito o melhor jogador de uma Copa do Mundo – o alemão Oliver Kahn, em 2002 – com o agravante de que o seu time sequer foi campeão!

Ainda não faz um ano, e eu já me pergunto: a Copa de 2010 será lembrada pela magia de alguma seleção, de um gol fenomenal, ou por causa da vuvuzela e da jabulani? Num futuro próximo, associaremos a Copa da África do Sul a um jogador genial ou a um polvo bidu do aquário de Oberhausen? Os esportistas de plantão haverão de me corrigir lembrando que, além de Paul, o polvo, Mani, um periquito de Cingapura também adivinhava os vencedores dos principais confrontos.

Resumindo: uma corneta infernal, uma bola concebida para atrapalhar o jogo, um polvo e um periquito de realejo são mais citados do que a seleção campeã da Copa de 2010! Pudera: para ser a campeã do mundo, a Espanha marcou oito gols em sete jogos!!!

Alguém arrisca qual será a sensação da Copa do Qatar, em 2022? A Bolsa de Londres bem que podia abrir apostas: a rede atrás do gol, um jornalista, o massagista de uma delegação azarã que não passará das semifinais, um jogador, a mãe do juiz escalado para a final, um insuspeito prato de sopa em que se pode ler, antecipadamente, o nome do time vencedor…

O futebol é uma caixinha de surpresas. Quem viver verá.

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