ELIS REGINA – “O MESTRE-SALA DOS MARES”

Composto em 1975, por João Bosco e Aldir Blanc, o samba “O Mestre-Sala dos Mares” – imortalizado na voz da nossa “little pepper”, Elis Regina – homenageia um personagem que a história oficial tentou soterrar nos porões da memória nacional.

O homenageado é o almirante negro João Cândido, líder da chamada “Revolta da Chibata”, ocorrida em 1910. Filho de escravos, João nasceu em Encruzilhada, no Rio Grande do Sul, e, aos 15 anos, ingressou na Escola de Aprendizes Marinheiros de Porto Alegre.

A “Revolta da Chibata”, um movimento contra os maus tratos sofridos pelos marujos que trabalhavam em navios de guerra brasileiros, constantemente submetidos a castigos corporais, eclodiu no dia 22 de dezembro de 2010.

Mais de 2.300 homens – negros, na grande maioria – tomaram o comando dos navios e apontaram seus canhões para o Palácio do Catete, à época a sede do governo brasileiro. Além do fim das chibatadas, os revoltosos reivindicavam melhorias no soldo e diminuição da carga horária.

Com aquela quantidade de canhões apontados para sua residência oficial, o então presidente Hermes da Fonseca tratou de fechar um acordo que incluía uma anistia aos amotinados. Os marujos, confiantes de que o acordo seria cumprido, devolveram os navios aos seus comandantes, mas…

Mas, três dias depois, veio a traição: a anistia foi cancelada e muitos deles foram presos. Alguns teriam sido mortos e jogados ao mar. João Cândido e outros 17 líderes do movimento foram encarcerados na Ilha das Cobras, onde 16 deles morreram na noite de Natal, sufocados pela evaporação de uma mistura de cal e água.

Apenas João Cândido e outro marujo sobreviveram. Em depoimento, ele disse que os gritos de seus companheiros, naquela noite de Natal, jamais lhe saíram da cabeça. O capitão Marques da Rocha, o responsável pela prisão, foi absolvido. Melhor que isso: ele foi promovido e recebido em um jantar oferecido pelo presidente Hermes da Fonseca.

Em 1911, João Cândido foi internado como louco, no Hospital dos Alienados, e, em 1912, foi expulso da Marinha. Viveu uma vida pobre, porém digna, e, em 1969, já com 89 anos, faleceu vítima de câncer. Seu velório, ocorrido em pleno regime militar, foi vigiado por viaturas.

Seis anos depois de sua morte, João Cândido foi lembrado pelo samba de João Bosco e Aldir Blanc. E como ainda vivíamos o regime militar, a música foi censurada. Aldir teve que alterar alguns versos, mas, mesmo assim, a homenagem ao “Mestre-Sala dos Mares” permaneceu.

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