FAGNER E ZÉ RAMALHO – “CANTEIROS”

Em 2017, eu escrevi sobre a música “Canteiros” e, como não havia, à época, nenhuma interpretação do Fagner disponível no Youtube, postei um vídeo com dois conhecidos cantores de Goiás – Pádua e Tom Crhis – que fizeram uma belíssima releitura dessa música.

Creio, porém, que vale um repeteco, uma vez que agora temos no Youtube uma versão de “Canteiros”, ao vivo, com o Fagner e o Zé Ramalho, em show de 2014. Curiosamente, o show dos dois nordestinos rendeu um CD, mas essa música não foi incluída, talvez pelas dores de cabeça que ela já deu ao Fagner.

As dores de cabeça foram causadas por um processo que durou mais de 25 anos. Ocorre que as filhas da poetisa Cecília Meireles, falecida em 1964, não gostaram do fato de Fagner ter utilizado trechos de um poema da mãe – “Marcha” – sem dar o devido crédito. 

Gravada em há quase cinquenta anos, no álbum de estreia de Fagner – “Manera Frufru, Manera”, de 1973 – “Canteiros” acabou, por conta do processo das filhas de Cecília, causando a retirada do disco das lojas. Além disso, as rádios ficaram impedidas de tocar “Canteiros”, enquanto Fagner ficou proibido de cantá-la em seus shows. 

Ao contrário, porém, do que muita gente imagina, a letra de “Canteiros” não é inteiramente baseada nos versos de Cecília. Na verdade, apenas os versos iniciais é que foram inspirados em um trecho do poema.

De qualquer forma, foi um plágio. Tanto é que, em 1977, Fagner registrou a poetisa como coautora da letra de “Canteiros“. Em 1979, interrogado por um juiz, durante uma audiência, Fagner afirmou que “sem tirar a beleza dos versos, procurou fazer uma adaptação à música”, reconhecendo o uso indevido do poema de Cecília.

Mesmo tendo reconhecido o erro e registrado a poetisa como coautora, a ação judicial teve continuidade e, em 1983, Fagner e a gravadora Polygram foram condenados a pagar uma indenização às filhas de Cecília, por violação de direitos autorais.

A Polygram, entretanto, continuou resistindo e apelou ao STF. O litígio se arrastou até 1999, quando a gravadora Sony Music, sucessora da Polygram, fez um acordo com as herdeiras de Cecília Meireles, que incluía uma autorização para regravação da música no álbum ao vivo de Fagner, que viria a ser lançado no ano seguinte.

Como se vê, o início da carreira de Fagner foi um tanto turbulento, mas, transcorrido quase meio século, “Canteiros” se tornou, realmente, um clássico da MPB e continua sendo uma das músicas mais pedidas em barzinhos e nos shows do cantor/compositor cearense.

Antes de ir ao vídeo, compare o trecho da poesia de Cecília com os versos iniciais da música do Fagner:

“Marcha”

Quando penso no teu rosto,

Fecho os olhos de saudade.

Tenho visto muita coisa,

Menos a felicidade.

Soltam-se meus dedos tristes

Dos sonhos claros que invento

Nem aquilo que imagino

Já me dá contentamento

“Canteiros”

Quando penso em você,

Fecho os olhos de saudade.

Tenho tido muita coisa,

Menos a felicidade.

Correm os meus dedos longos

Em versos tristes que invento

Nem aquilo a que me entrego

Já me dá contentamento

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