HISTÓRIAS E ESTÓRIAS DE JOÃO GILBERTO

Eu tenho um amigo que consegue ouvir um disco do João Gilberto três vezes seguidas. Eu, que não tenho gosto tão refinado, não consigo ouvir seguidamente nem três músicas cantadas por ele. O meu gosto, porém, não interessa. O que interessa mesmo é que João foi um gênio e – como diz o crítico musical Mauro Ferreira – inseriu o Brasil no mapa-múndi musical.

Ontem, por exemplo, eu vi um filme americano – “Doce Trapaça”, com Gene Hackman e outros menos votados – cuja trilha sonora está recheada de clássicos da Bossa Nova, incluindo Meditação, com o próprio João, e Insensatez, com a ex-mulher dele, Astrud Gilberto.

João morreu neste sábado e o prezado leitor poderá ler e ouvir muita coisa sobre ele nos próximos dias, de sorte que vou me dispensar de ir aos detalhes sobre a vida e a importância dele para a nossa música. Ficarei nas curiosidades.

Por excêntrico e perfeccionista, João foi alvo de muitas histórias e até de uma sátira – “Cagar é Bom” (ouça aqui) – gravada pelo Língua de Trapo, Juca Chaves e outros. Em junho deste ano, quando João completou 88 anos, um jornal contou algumas dessas histórias – ou estórias:

1- João tinha uma espécie de fobia social. Por isso, recebia bilhetes frequentemente por debaixo da porta, como forma de comunicação. Até Elba Ramalho passou por isso. A cantora ligou para o apart hotel em que ele vivia, no Leblon, e pediu para vê-lo. Ele perguntou: “Você tem um baralho”. Ela disse que sim e foi comprar um. Ao chegar ao apart hotel, ele pediu que ela passasse o baralho por baixo da porta, e não a recebeu.

2- Segundo Ruy Castro, autor do livro “Chega de Saudade”, sobre a Bossa Nova, ele tinha hábitos fixos. Acordava às cinco horas da tarde, almoçava quase meia-noite e jantava às sete da manhã. João Gilberto odiava alterações em sua rotina.

3- O baiano pedia comida todos os dias no mesmo lugar. Segundo Ruy Castro, ele ligava todos os dias para o mesmo garçom, perguntava se tinha alguma novidade no cardápio e, qual fosse a resposta, pedia um steak ao sal grosso.

4- Durante a gravação de “Samba de uma Nota Só”, em 1963, João Gilberto se irritou com os erros do saxofonista americano Stan Getz. E pediu para Tom Jobin: “Diga pra esse gringo que ele é burro”. “Stan, o João está dizendo que o sonho dele sempre foi gravar com você”, traduziu Jobim. “Engraçado. Pelo tom de voz, não parece que é isto o que ele está dizendo”, finalizou Getz.

5- Em 1999, na inauguração do Credicard Hall, em São Paulo, João reclamou tantas vezes do sistema de som e da presença de eco inadequado na sala que foi vaiado por parte da plateia. Revidou cantarolando a frase “vaia de bêbado não vale”, fazendo caretas e estirando a língua na direção dos apupos. A frase de João foi depois aproveitada por Tom Zé em uma música.

No vídeo, João Gilberto e Caetano Veloso cantam “Chega de Saudade”, o marco zero da Bossa Nova.

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