“NÃO TÁ FÁCIL…” – PASCOALINO S. AZORDS

O escriba Pascoalino S.Azords – um velho amigo jalesense que há tempos se mandou para outras plagas – dedicou a este aprendiz de blogueiro a crônica que ele publica semanalmente no combativo jornal impresso “O Debate”, de Santa Cruz do Rio Pardo. Eis a crônica:

Não tá fácil…

(para o Cardosinho)

Eu não queria ficar um velho pessimista e amargo como o português José Saramago, que Geraldo Machado, acertadamente, chamou de Salamargo. Para entender o que nobelíssimo Saramago escreve, às vezes preciso fazer tanta ginástica que me dá câimbras ou formigamento. Eu queria mesmo é ficar um velho louco e sorridente como Manoel de Barros, que, maior de 80 anos, ainda gostava dos filmes do Jim Jarmusch e tomava sua cachacinha diária. “É melhor ser alegre que ser triste”, já dizia o Vinícius de Moraes. Eu juro que venho tentando. Até deixei de comprar tênis… Mas tá difícil.

Não vou aqui nesse cantinho de página listar as cagadas do ex-vice-presidente decorativo em exercício. Disso se ocupa a chamada grande imprensa. É notícia ruim pra todo mundo, todos os dias da semana. Mas, picado pelo espírito natalino das lojas do centro por onde hoje campeei uma inocente ventana, me vejo batendo pernas pelas ruas da minha cidade, 45 anos atrás. Naquele tempo, eu ainda não procurava nada. Adentrava as lojas apenas para me esconder da chuva. E um desses abrigos era a Livraria Mariza, que praticamente só vendia cadernos e livros didáticos, mas tinha também uma razoável seção de discos.

chico-buarque-construcaoPassei aquele Natal de 1971cobiçando um LP que o Deonel não se cansava de tocar na Rádio Cultura. Estava lá na prateleira da Livraria Mariza, mas, cadê o dinheiro?

Hoje, eu tornei a ouvir o disco que não pude comprar 45 anos atrás. Abaixei o volume para não incomodar os cachorros e os passarinhos importados da vizinhança, e vi em alto bom som o quanto a gente regrediu. Longe de mim o pessimismo do premiado Saramago. Mas, mesmo vivendo sob uma ditadura covarde e sanguinária em 1971, pelo menos tínhamos um povo que se indignava. E por isso era perseguido, preso, exilado, quando não torturado e morto em repartições públicas, por funcionários públicos, quase sempre fardados, em pleno expediente!

E além da indignação, tínhamos a Música feita pelos jovens brasileiros de 45 anos atrás: Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Jorge Ben, Djavan, Alceu Valença, João Bosco, Gonzaguinha… E Chico Buarque, que naquele Natal de 1971 estava lançando “Construção”, seu quinto disco, aos 27 anos de idade. Por extenso para que não paire dúvida: aos vinte e sete anos de idade o compositor que hoje pode ser desrespeitado por qualquer playboy desinformado já tinha cinco discos no currículo.

Mais do que prazer, ouvir “Construção” também me dá uma noção do quanto emburrecemos. “Construção” tocava no rádio – e sem parar! Assim como, dois anos depois, no parque de diversões uma das músicas do “Dark Side of the Moon”, o disco do prisma do Pink Floyd, era a trilha para a moça que bateu na mãe se transformar em gorila.

É ou não é de amargar?

1 comentário

  • Me lembro bem da Livraria Mariza,comprei alguns livros e revistas.Da seção de discos,eu não me lembro.Os tempos eram outros,as rádios e televisões davam espaço pra boa música.A variedade ia de Chico Buarque à Pink Floyd,duas expressões artísticas tão diferentes e equivalentes.

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