O SAMBA SÓ TEVE UMA RAINHA: BETH CARVALHO

Beth Carvalho cantou “Lula Livre” e defendeu o samba e a democracia. O texto é do jornalista Júlio Maria, no Estadão:

O samba teve uma rainha apenas e ela foi Beth Carvalho. Com toda reverência a entidades inquestionáveis dessa monarquia, como Clementina de Jesus e Dona Ivone Lara, Beth, para além do que aquele timbre de voz absurdamente único podia fazer, teve uma posição estratégica primordial para que o samba descesse os morros e ganhasse os palácios.

Assim que surgiu com mais força, no final dos anos 1970, depois de ensaiar um começo mais direcionado para a MPB, a garota branca da zona Sul do Rio, filha de um ideólogo comunista, não era vista com bons olhos pelas alas menos progressistas das rodas do Rio. Afinal, o que queria a branquinha bem nascida se infiltrando nas quadras? “Eu nunca senti preconceito”, dizia Beth, protegida por uma verdade desconcertante a quem duvidava de seus propósitos. “O samba não admite mentira.” Eles percebiam logo que a moça não estava para brincadeira.

O trabalho deu a Beth Carvalho sua glorificação. Ela só tinha 19 anos quando defendeu Andança no 3º Festival Internacional da Canção, de 1968, a música de Paulinho Tapajós, Danilo Caymmi e Edmundo Souto, com ajuda vocal do Golden Boys. Saiu com o terceiro lugar mas colocou a música em sua história para sempre. Desde então, o samba sugou suas inspirações e lá foi ela, se consolidando disco após disco, um por ano, trazendo de vários autores 1.800 Colinas, Saco de Feijão, Olho por Olho, Coisinha do Pai, Firme e Forte, Vou Festejar, Acreditar, Mas quem disse que eu te esqueço.

A “grande madrinha” gostava de dizer os nomes dos afilhados. Eram grupos e sambistas que não acabavam mais, incluindo gente da velha guarda esquecida que fazia Beth sentir nas veias a missão de resgatá-los com luxo e circunstância. Em 1972, fez isso por Nelson Cavaquinho e descobriu Folhas Secas. Bom para Nelson, sensacional para Beth. O produtor daquele disco era Cesar Camargo Mariano, marido de Elis Regina. E então, dá para imaginar o que acontece. Cesar leva a fita da música gravada para casa, antes do disco sair, e Elis a ouve. “Eu quero gravar esta música antes.”

Elis, que também estava terminando um disco, sai correndo, pega a música, manda Cesar fazer o arranjo (o núcleo da banda de Beth também era a mesma da de Elis) e consegue lançar antes. Beth vira uma fera e fica mais de dez anos sem falar com Cesar Camargo Mariano. A história, no entanto, ficaria com a gravação de Beth, que conta com o violão de Nelson Cavaquinho.

Os anos 1980 chegaram e o samba mudou. O partido alto pós Era dos Festivais ganhou força e, sobretudo na zona oeste do Rio, uma turma vinha para tremer o chão. Beth passou a ser frequentadora assídua do Cacique de Ramos e a, na roda, sentar-se ao lado de uns meninos que ninguém conhecia. Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Sombrinha, Almir Guineto, Jorge Aragão. Alguns formariam o grupo Fundo de Quintal, que seria mostrado ao planeta em um disco de 1978 que Beth batalhou em sua gravadora para fazer: De Pé no Chão. Um estouro que venderia mais de 500 mil cópias.

Foi para comemorar seus 70 anos de vida que a sambista foi ao palco pela última vez, deitada em uma cama long chaise. “Não tem o show Na Cama com Madonna? Aqui é o Na Cama com Beth Carvalho”, ela dizia logo no início do show. Beth cantando deitada O Show Tem que Continuar, com a voz vacilante pela dor indisfarçável que deveria sentir naquelas noites, foi a prova maior de amor à música que um artista já deu sobre um palco.

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