ODAIR JOSÉ, ARNALDO ANTUNES E PAULO MIKLOS – “EU VOU TIRAR VOCÊ DESSE LUGAR”

São muitas as histórias de Odair José, que teve músicas censuradas pela ditadura militar e chegou a se exilar em Londres. A histórica vaia que ele e Caetano Veloso tomaram no Festival Phono 73 – o mesmo evento em que os microfones foram desligados quando Chico Buarque e Gilberto Gil cantavam “Cálice” – é uma delas.

De sorte que, para resumir, escolhi um texto do jornalista Paulo Lima, publicado em 2015 pela IstoÉ:

Nossa capacidade de engavetar pessoas em compartimentos etiquetados com rótulos burros e reducionistas é mesmo incrível. Odair José é possivelmente uma das mais notórias vítimas desse tipo de ignorância. Felizmente porém, a sabedoria popular se encarrega de fazer justiça com as próprias mãos, ouvidos e bolsos.

Quando compôs uma música denunciando a condição análoga ao trabalho escravo em que vivia boa parte das empregadas domésticas brasileiras nos anos 70 por exemplo, o artista foi taxado de brega e apelidado pejorativamente  de “cantor das empregadas domésticas”

Odair José estourou nos anos 1970, mais precisamente em 72 quando o compacto “Eu Vou Tirar Você Deste Lugar” vendeu um milhão de cópias, um número altíssimo para os padrões da época. A música, que descrevia o amor romântico de um homem por uma prostituta, evidenciou o estilo autêntico e corajoso das letras de suas composições e que marcou sua extensa e popular obra. Entre milhões de admiradores dessa canção, um marcou especialmente: Dorival Caymmi que certa vez disse ao autor que aquela era uma das canções mais sensíveis e belas que jamais tinha ouvido.

No ano seguinte lançou “Odair José”, o LP que o consagrou. Quase todas as músicas do disco foram executadas exaustivamente nas rádios do país em sua fase pré-FM. Sua primeira faixa, “Deixa Essa Vergonha de Lado”, começa assim: “Eu já sei que essa casa onde você diz morar, onde todo dia no portão eu venho lhe esperar, não é a sua casa. Eu já sei que o seu quarto fica lá no fundo e se você pudesse fugir desse mundo e nunca mais voltar…”

Essa balada romântica tocou fundo o coração de uma multidão de mulheres brasileiras que compunham o contigente de empregadas domésticas do país, trabalho que nem regulamentado pela lei estava, o que aconteceu logo em seguida no mesmo ano da canção, 1973. A música falava da humilhação de uma empregada que escondia sua condição por vergonha e medo de perder o seu amor. A partir daí, como mencionado no início, passou a ser conhecido como “o cantor das empregadas domésticas”.

“A letra, naquele momento, foi feita para chamar a atenção para uma classe de profissionais que era totalmente desrespeitada. Não eram reconhecidas como funcionárias, eram praticamente escravas. Serviam para ser amantes do dono da casa, do filho do dono, eram exploradas com horários absurdos. Elas tinham vergonha daquilo porque era uma situação totalmente à margem do saudável”. O álbum também continha outra de suas canções icônicas, a “Uma Vida Só – Pare de Tomar a Pílula”.

 Redescoberto e incentivado por artistas mais jovens como Zeca Baleiro, José tem feito shows e gravado cds de músicas inéditas com sucesso. E preserva a calma e o discurso claro e seguro de quem não precisa mais provar nada. “Ele sempre foi um artista influente, mas agora, com o juízo generoso do tempo e da história, tem sido devidamente reconhecido e será cada vez mais”, disse Zeca Baleiro, que produziu “Praça Tiradentes”, penúltimo álbum de Odair, lançado em 2012.

Tanto foi redescoberto que, no vídeo abaixo, Odair José canta “Eu Vou Tirar Você Desse Lugar” com Arnaldo Antunes, Paulo Miklos, Otto e Bárbara Eugênia.

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