A CRÔNICA DO PASCHOALINO – “SONHOS DE VERÃO”

E o Paschoalino S. Azords acaba de me mandar a crônica que vai sair no jornal Debate, de Santa Cruz do Rio Pardo, neste final de semana. Começa assim:  

Por que não pensei nisso antes? Eis uma pergunta cada vez mais freqüente no mundo de hoje. E não é pergunta para ser feita somente em congressos e feiras de ciência. A qualquer hora, qualquer um de nós pode escorregar nessa indagação abismal: diante das bobagens da TV, calado no banco da igreja, falante na mesa do bar…

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                                                           Sonhos de verão

Por que não pensei nisso antes? Eis uma pergunta cada vez mais freqüente no mundo de hoje. E não é pergunta para ser feita somente em congressos e feiras de ciência. A qualquer hora, qualquer um de nós pode escorregar nessa indagação abismal: diante das bobagens da TV, calado no banco da igreja, falante na mesa do bar… Os cientistas devem se cobrar por coisas complicadas e importantes. Para nós mortais, as coisas banais que fazem sucesso é o que conta. Quanto mais simples e lucrativa, mais nos humilham por não tê-las visto primeiro. Como a combinação de seis algarismos da Mega Sena, por exemplo. Sempre há alguma coisa de óbvio no resultado da loteria, pode reparar.

Mas nem sempre foi assim. No ano de 1900, os 40 milhões de visitantes da Exposição Universal voltaram de Paris com duas grandes certezas na bagagem: a existência de Deus e a idéia de que nada mais precisava ser inventado. Aqueles afortunados turistas tiveram tempo e prazer em espalhar a boa nova ao resto do mundo depois de conferir os efeitos da eletricidade no Palácio das Águas e na Sala das Ilusões, à margem do Sena.

Decorridos 110 anos, temos, a cada dia, motivos para ver que não é bem assim. O mundo, ao contrário do que pensavam os velhos crentes, é um saco sem fundo. Thomas Edison, Henry Ford, Santos Dumont, Marconi, Einstein, Sabin, Bill Gates e outros gênios foram plantando em nós essa certeza do infinito.

Mas nem só de descobertas e invenções se alimenta a nossa saudável inveja. O senso de oportunidade de um camelô, de um bispo, ou de um palhaço, causa o mesmo efeito no cidadão comum: Por que não pensei antes num carnê do bau, em igrejas para proprietários de veículos com muitas vagas na garagem, ou numa fantasia ridícula para me eleger deputado?

Saber dobrar um arame ou lambuzar de cola um rolo de fita com nome de panqueca pode ser mais importante do que descobrir uma vacina. (O clip e a fita crepe foram, recentemente, incluídos na lista das 10 maiores invenções da humanidade). Vai entender os homens. Mike Tyson ganhou mais dinheiro destruindo pessoas do que Christhiaan Barnard e Euríclides Zerbini, juntos, tentando salvar vidas com corações que ainda podiam bater dentro de outra pessoa ao invés de alimentar corós no cemitério.

No mundo inteiro existem pessoas arriscando um olho no futuro. No laboratório ou num balcão de negócios, em Bombaim ou Timburi, sempre tem gente querendo inovar. O cinema falado, o desenho animado e o conto do bilhete premiado já foram inventados. A secretária eletrônica e a guarda-mirim já estão empregados. A aspirina, o GPS, o disk-pizza, o sexy-shop, a cachaça bidestilada, o coquetel molotov, o estrogonofe de frango…

Olhando o cardápio de uma pizzaria sou tentado a pensar como nossos tataravós, em 1900: nada falta, tudo o que tinha que ser já existe – desisto de reinventar a pizza.

Se tivesse estudado química, eu tentaria sintetizar o sabor de tampinhas da caneta esferográfica. Fabricando balas e refrigerantes com sabor de tampinha de caneta Bic, eu ficaria bilionário da noite pro dia, como o Eike Batista. Se tivesse estudado medicina e música, como Noel Rosa, eu pesquisaria uma droga capaz de matar o “piolho musical”. Sabe aquela música chata que gruda na cabeça e não sai nem quando dormimos? Quem padece dessa coceira no cérebro sabe que não há dinheiro que pague qualquer coisa que nos livre desse prurido sonoro. Quem sabe na forma de shampoo, supositório ou comprimido.

Como não estudei pra nada, só me resta a política.   

Dia desses tive um sonho. Eu estava na varanda do fundo (dentro do sonho), esperando a chuva de carvãozinho passar, quando uma voz grave como um trovão anunciou: “E de tu, Ourinhos, que não é de modo algum a menor entre as cidades, sairá a salvação da Pátria: um partido nanico nascido da esposa, sem o concurso do pai, que se chamará…”.  Eu logo pensei: “Reconheço essa voz, não sei de onde… De algum filme da Metro?”. Já de caneta em punho para anotar o nome do Partido Político (dentro do sonho), quando (fora do sonho), a buzina do trem me acordou.

A caminho da cozinha para o providencial copo d’ água tentei interpretar aquele sonho engajado. Por que não pensei nisso antes? Um partido político criado em Ourinhos para consertar o Brasil, que tem mãe, mas não tem pai…

Já inteiramente acordado, voltei para a cama. O copo d’ água tem efeito imediato nesses sonhos de verão. A patroa perguntou se eu não estava passando bem. “Tava pensando naquela idéia de sintetizar o sabor das tampinhas de caneta”, menti…, e dormi.

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