Categoria: Música

GILBERTO GIL, CAETANO VELOSO E IVETE SANGALO – “A NOVIDADE”

A desigualdade social é um tema que está presente na obra musical de vários compositores de diferentes gêneros e de épocas diversas.

Um dia desses, escrevi alguma coisa por aqui sobre a música “Deusa do Asfalto”, que o Nelson Gonçalves considerava sua canção mais importante, na qual um sujeito do morro se apaixona por uma moça do asfalto, ou seja, da elite que habitava o centro da cidade. Não deu certo!

Em “O Neguinho e a Senhorita” até que o amor dos dois personagens deu certo, não obstante a diferença social entre os pombinhos e o preconceito da mãe da moça.

Mas a desigualdade não está presente apenas em músicas que falam de amor. Ela está, principalmente, nas músicas de protesto. O compositor Ham Cheese, por exemplo, gritou seu inconformismo dizendo que “enquanto uns andam de limousine / outros andam de carroça / enquanto uns comem mais do que pode / outros morrem de fome”.

Na obra do baiano Gilberto Gil, o tema da desigualdade pode ser percebido em músicas como “Procissão”, “Roda”, “Nos Barracos da Cidade” e em “A Novidade”.

Esta última foi composta em parceria com os rapazes do Paralamas do Sucesso – Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone – autores da melodia. No livro “Todas as Letras”, Gil conta que estava em Florianópolis quando Herbert ligou para ele e lhe pediu para colocar letra na única música que faltava para fechar o disco “Selvagem”, que os Paralamas estavam terminando de gravar.

Herbert mandou pelo correio uma fita com a melodia que Gil, depois de ouvir três ou quatro vezes, começou a colocar a letra e, antes de uma hora, já estava pronta. “A letra veio como um tiro certeiro, absolutamente de chofre, inteira. Eu considero uma de minhas melhores letras, pela escolha e pela maneira de tratar o assunto”.

O refrão de “A Novidade” resume tudo: “ó, mundo tão desigual / tudo é tão desigual / ó, de um lado este carnaval / do outro a fome total…”. Segundo Gil, os versos podem levar as pessoas a pensar imediatamente no Brasil, mas ele está falando sobre o Terceiro Mundo em geral.

No vídeo, Gil, Caetano Veloso e Ivete Sangalo cantam “A Novidade”:

GERALDO VANDRÉ, 85 ANOS DE UM ENIGMA

Do jornalista Rogério Marques, em sua página no facebook:

Um grande artista brasileiro que muito admiro, Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, conhecido como Geraldo Vandré, está fazendo 85 anos neste 12 de setembro.

Vandré é autor de várias músicas belíssimas, como “Canção do breve amor” (com Alaíde Costa) e “Disparada” (com Théo de Barros), embora tenha ficado mais conhecido com “Pra não dizer que não falei das flores (Caminhando)”, sempre cantada nos protestos contra a ditadura militar.

Geraldo Vandré é também um dos grandes enigmas da nossa música e da política.

Depois de decretado o Ato 5, em dezembro de 1968, passou a ser caçado pela polícia, como vários artistas. Antes de partir para o exílio, fez uma outra bela canção em parceria com o pernambucano Geraldo Azevedo, “Canção da despedida”, censurada e só gravada alguns anos depois:

“Já vou embora

Mas sei que vou voltar

Amor, não chora

Se eu volto é pra ficar.”

Como previa a letra da canção, Vandré voltou pra ficar, mas desde então é um outro Vandré. Recluso, evita entrevistas ou falar de tempos passados. Parece uma outra pessoa, até no olhar distante.

Vandré retornou ao Brasil em 1973, no auge da repressão política, das prisões, torturas, dos “desaparecimentos” de opositores, quando o ditador era Emílio Garrastazu Médici.

Essa volta até hoje é um mistério. Dizem que envolveu negociações de sua família e dele próprio com a ditadura militar brasileira. O compositor nunca confirmou isso, nem disse ter sido torturado.

Mas como alguém poderia mudar assim, definitivamente, mesmo depois do fim da ditadura?

Vandré tornou-se admirador da Aeronáutica a tal ponto que quando vem ao Rio hospeda-se em um alojamento para militares da Força Aérea, em uma base militar junto ao Aeroporto Santos Dumont. E compôs, em homenagem à FAB, a música “Fabiana”.

É difícil entender tamanha mudança, mas nunca julguei Geraldo Vandré por isso, nunca mesmo. Ao contrário, sempre o admirei. Adoro as canções que ele fez até 1968, canções que fizeram parte da minha adolescência e juventude, que sinto prazer em ouvir até hoje.

Neste 12 de setembro desejo paz, saúde, muita felicidade a esse grande artista brasileiro pelos seus 85 anos.

Da música citada pelo jornalista – “Canção da Despedida” -, que a Elba Ramalho, tão paraibana quanto Vandré, canta lindamente, o trecho que mais gosto diz que:

“Um rei mal coroado,
Não queria
O amor em seu reinado
Pois sabia
Não ia ser amado.”

No vídeo, Vandré canta “Aroeira”, um de seus clássicos:

GAL COSTA E TIM MAIA – “UM DIA DE DOMINGO”

O compositor Michael Sullivan foi destaque na imprensa, nesta semana, por conta da posse do novo presidente do STF, o ministro Luiz Fux. Isso porque algum puxa-saco do ministro lembrou que, entre as inúmeras qualidades de Fux, estão a de guitarrista e compositor.

Disseram até que ele tem uma música composta em parceria com o Michael Sullivan. Eu nunca ouvi a tal música da dupla Sullivan-Fux, mas não duvido que ela exista. Afinal, o Michael Sullivan já compôs mais de 1.500 músicas, de sorte que é perfeitamente possível que ele tenha feito pelo menos uma em parceria com o ministro.

Nascido em 1950, no Recife, Ivanildo de Souza Lima escolheu seu nome artístico (Michael Sullivan) em uma lista telefônica. Isso não é inédito. A mãe do ator Herson Capri, por exemplo, escolheu o nome do filho em um almanaque do Banco do Brasil, que trazia o nome de todos os seus funcionários.

Ivanildo – ou Michael – iniciou sua carreira nos anos 60, como guitarrista e cantor de um conjunto – Os Selvagens – que tocava em bailes. Em 1970, ele já estava tocando no famoso conjunto Renato e Seus Blue Caps. Em 1979, entrou para o conjunto The Fevers.

A carreira de compositor deslanchou bem antes dele conhecer o ministro Fux. Foi nos anos 80, quando ele começou a compor com seu principal parceiro, o letrista Paulo Massadas. O primeiro sucesso da dupla foi “Me Dê Motivo”, lançada por Tim Maia em 1983. Logo depois, veio “Nem Morta”, com a Alcione.

Por sinal, essa música rendeu à dupla uma homenagem da comunidade gay, uma vez que o título da canção, “Nem Morta”, foi inspirado em um bordão muito utilizado, à época, por gays, lésbicas e assemelhados.

As músicas melosas de Sullivan e Massadas – “Deslizes” (Fagner), “Um Sonho a Dois” (Joanna e Roupa Nova), “Entre Nós” (Sandra de Sá), “Nem Um Toque” (Rosana), “Estranha Loucura” (Alcione), “Retratos e Canções” (Sandra de Sá), entre outras – fizeram tanto sucesso que, em 1987, eles estavam entre os maiores arrecadadores de direitos autorais, perdendo apenas para a dupla Roberto e Erasmo Carlos.

Uma das canções mais famosas da dupla é “Um Dia de Domingo”, lançada em 1985 no disco “Bem Bom”, de Gal Costa, em que ela canta a música ao lado de Tim Maia.

Gal e Tim gravaram suas participações separadamente. O primeiro a gravar foi Tim. Depois foi a vez de Gal, que, em princípio, não gostou muito da música, considerada um pouco brega por ela. Além disso, Gal teve problema com o tom (altura, como se diz popularmente) da música.

A música fez tanto sucesso que o Fantástico resolveu fazer um clipe, com Tim e Gal cantando juntos. No dia marcado para a gravação do clipe, Gal mandou avisar que não poderia gravar, pois seu vestido não ficara pronto.

A gravação foi remarcada para dois dias depois, mas aí Tim Maia resolveu dar o troco. No dia combinado, ele não apareceu e mandou avisar que o vestido dele não tinha ficado pronto, de sorte que o Fantástico não conseguiu reunir os dois.

O único registro global com Gal e Tim cantando juntos – ou fingindo cantar, já que se tratava de um play-back – é do programa “Cassino do Chacrinha”. O Velho Guerreiro utilizava-se de uma tática infalível para que Tim Maia – àquela altura famoso por faltar aos seus próprios shows – não faltasse aos seus programas. Na véspera do programa, Chacrinha sempre ligava para a mãe de Tim Maia e ela se incumbia de não deixar o filho “dar o bolo” no Velho Guerreiro.

Foi assim que Chacrinha conseguiu juntar Tim Maia e Gal Costa, na única vez em que eles aparecem juntos, cantando “Um Dia de Domingo”. Eis o vídeo:

CHORO DAS 3 E PAULO GODOY – “A VOLTA DO BOÊMIO”

“A Volta do Boêmio”, composta por Adelino Moreira, um português de nascimento criado no Rio de Janeiro, foi o maior sucesso da carreira de Nelson Gonçalves, o segundo maior vendedor de discos da música brasileira (o primeiro é Roberto Carlos).

O samba-canção, gravado por Nelson em 1957, conta a história de um sujeito que abandonou a boemia pelo amor de uma mulher, mas, depois de algum tempo, resolveu, com a aprovação da amada, voltar à vida antiga.

Apesar de ser a música mais conhecida de Nelson – que, na verdade, se chamava Antonio Gonçalves Sobral – “A Volta do Boêmio” parece não ser a mais importante, pelo menos para o cantor, que, em certa ocasião, declarou que a música de sua vida foi “A Deusa do Asfalto”.

Essa canção, também de Adelino Moreira, fala de um amor não correspondido entre duas pessoas de realidades diferentes: ela do asfalto, ele do morro. Não se sabe se Nelson viveu alguma situação parecida, mas o fato é que ele tinha predileção por “A Deusa do Asfalto”, embora fosse obrigado a cantar “A Volta do Boêmio” em todos os seus shows.

Gaúcho, Nelson Gonçalves cresceu nas ruas de São Paulo e, filho de família humilde, trabalhou como jornaleiro, mecânico, tamanqueiro, engraxate e pedreiro. O sonho de ser cantor, ele o realizou no Rio de Janeiro, não sem antes passar por situações humilhantes, por ser gago. Ary Barroso, por exemplo, chegou a dizer que Nelson teria mais futuro como pedreiro do que como cantor.

Nascido em 1919, Nelson morreu no dia 18 de abril de 1998, aos 78 anos, mas, nos noticiários televisivos, ele teve que dividir espaço com um dos principais ministros do governo FHC, o Sérgio Mota, que morreu naquele mesmo dia.

No entanto, ao contrário de Sérgio Mota, Nelson Gonçalves continua vivo no imaginário dos amantes da boa música e, vez em quando, é homenageado. No ano passado, por exemplo, Nelson recebeu homenagem das talentosíssimas moças do conjunto “Choro das 3”.

Acompanhadas pelo cantor Paulo Godoy, que muita gente pensa ser filho de Nelson Gonçalves, as meninas – Corina, Lia e Elisa, sobre as quais já falei neste modesto blog – fizeram o show tributo “100 anos de Nelson Gonçalves”. E uma das músicas apresentadas foi, é claro, “A Volta do Boêmio”.

NESSE SÁBADO, “LUAU DO SERTÃO”, A LIVE DE NETO & FELIPE EM PROL DA CAMPANHA “JALES SEM FOME”

A novidade foi enviada pela Giana Rodrigues, assessora de imprensa dos rapazes aqui de Jales, o Neto e o Felipe:

Uma Live bem sertaneja está chegando para marcar o lançamento da música e do clipe de Medo de Amar”, de Neto & Felipe.                                                                             

Neste sábado, dia 05, a partir das 19h, a dupla apresenta um repertório recheado de sucessos com convidados especiais.                                                                                                                                                                    Bruno & Edcarlos, Lucas & João Marcos e Zé Vitor & Matheus também vão soltar a voz nessa noite e toda a arrecadação através do QR code de Neto & Felipe irá para a Campanha “Jales sem Fome”, que atende famílias carentes de Jales com cestas básicas.

                                                                            Fique ligado que a transmissão será pelo canal do Youtube #netoefelipe e logo após a live, o clipe oficial de “Medo de Amar” estará no Youtube.

FAGNER E DORI CAYMMI – “AS ROSAS NÃO FALAM”

O cantor e compositor Raimundo Fagner está se preparando, desde 2015, para lançar um novo álbum com músicas inéditas. Para tanto, ele vem compondo novas músicas em parcerias com Chico César, Clodo Ferreira, Fausto Nilo, Moacyr Luz e Zeca Baleiro.

No entanto, para tristeza de dois amigos deste blogueiro – o Tinhoso e o Odair Brassolatti, da Transportadora Zero Hora, fãs do cearense – o Fagner parece que vai, mais uma vez, adiar o projeto do álbum de inéditas. Por sinal, o último que ele gravou com músicas novas foi “Pássaro Urbano”, de 2014.

O motivo para o adiamento é que – menos mal – Fagner vai se dedicar a outro projeto: um disco de tom seresteiro, com músicas antigas, a maioria da década de 1930. A informação é do jornalista e crítico musical do G1, o Mauro Ferreira.   

Segundo o Mauro, estão previstas as regravações de músicas como “Rosa” (que foi composta por Pixinguinha em 1917, e recebeu letra do compositor Otávio de Souza em 1937), “Malandrinha” (de Freire Júnior, 1927), “Maringá” (Joubert de Carvalho, 1931), “Noite Cheia de Estrelas” (Cândido das Neves, 1937), “Chão de Estrelas” (Sílvio Caldas e Orestes Barbosa, 1937), “Lábios Que Beijei” (J.Cascata e Leonel Azevedo, 1937) e “Deusa da Minha Rua” (Newton Teixeira e Jorge Faraj, 1939).

Além da safra 1920/30, Fagner deverá gravar, também, “Serenata do Adeus” (Vinícius de Moraes, 1958) e “As Rosas Não Falam” (Cartola, 1976). Com relação a esta última, não será a primeira vez que Fagner irá regravá-la.

A obra-prima do semi-analfabeto Cartola é umas das canções do álbum “Eu Canto”, de 1978, o quinto disco de Fagner. Afora isso, “As Rosas Não Falam” está também no disco “Me Leve”, de 2020, em bonito registro “ao vivo” de Fagner.

Raimundo Fagner Cândido Lopes irá completar 71 anos no próximo 13 de outubro. Apesar do nome bem brasileiro, que ele herdou da mãe, dona Francisca Cândido Lopes, Fagner é filho de um imigrante libanês de sobrenome Haddad Lupus.

No vídeo, Fagner canta “As Rosas Não Falam”, na boa companhia de Dori Caymmi.

NETO & FELIPE LANÇAM MÚSICA INÉDITA NESTA SEXTA-FEIRA

A nota foi enviada pela jornalista Giana Rodrigues, que está assessorando os garotos de Jales:

Falar de amor através de uma canção é uma forma de se conectar com o ouvinte como nenhuma outra.

Nesta sexta, dia 28, Neto & Felipe lançam “MEDO DE AMAR” em todas as plataformas digitais, disponível também para as emissoras de rádio.

No enredo trazem um protagonista que ainda carrega marcas de uma paixão antiga. O tempero da viola caipira executada por Neto foi brilhantemente dosado pelo produtor Jeff Pina, conhecido nacionalmente por trabalhos com o Anavitoria.

Os compositores Felipe Dellatorre, que faz a primeira voz na canção, e Léo Vieira, amigo da dupla, contam que a letra traz um pouco de suas vivências mas com a presença de um “eu lírico” muito mais marcante, um certo desprendimento dos acontecimentos narrados pela canção.

Músicos de grandes artistas deram seu toque especial para a canção: Alex Mesquita no contrabaixo e Diego Vicente, na bateria.

“Medo de Amar” marca a estréia da dupla Neto & Felipe na renomada distribuidora digital One RPM, o que certamente trará mais visibilidade e credibilidade ao seu trabalho.

A nova música pode ser ouvida aqui.

ERASMO CARLOS – “NUNCA PARE DE SONHAR”

Eu quase não vejo os canais da TV aberta, de forma que não sei dizer se nesses canais está sendo veiculado um comercial do Bradesco que, nos últimos dias, é repetido com frequência nos canais fechados como, por exemplo, a GloboNews.

Nele, a propósito de nos trazer a esperança de que os tempos bicudos que estamos vivendo irão passar, uma locutora diz que “ontem, um menino que brincava me falou que hoje é a semente do amanhã e para não ter medo que esse tempo vai passar”.

Se você só ouve música sertaneja, certamente não sabe que essas palavras estão nos versos de uma canção – “Nunca Pare de Sonhar” – de Gonzaguinha, também conhecida como “Sementes do Amanhã”, lançada em 1984, no LP “Grávido”, o mesmo que trazia, também, o sucesso “Lindo Lago do Amor”.

Igualmente, não deve saber que as palavras de Gonzaguinha já foram utilizadas também em outro contexto – o político – quando os brasileiros lutavam pela volta da democracia e pelo direito de eleger seu presidente.

Como se verá no vídeo abaixo, elas foram ditas pelo Erasmo Carlos no histórico comício das Diretas Já, realizado em abril de 1984, na Candelária, Rio de Janeiro, que, segundo notícias da época, reuniu mais de 1 milhão de pessoas.

Por sinal, Erasmo não ficou apenas na citação durante o comício. Naquele mesmo ano de 1984, o Tremendão lançou o álbum “Buraco Negro” e uma das músicas era “Sementes do Amanhã”.

O comício da Candelária contou com 52 oradores (Tancredo, Ulysses, FHC, Lula, Brizola, Montoro, etc), incluindo um político da Arena, partido da ditadura militar. Cristiane Torloni, para evitar vaias, o apresentou como um “rebelde”. Contou, também, com vários artistas – Chico Buarque, Fafá de Belém, Lucélia Santos, Milton Nascimento, Beth Carvalho, Fernanda Montenegro, etc, e, é claro, o Erasmo.

Fafá era chamada de “Musa das Diretas”. Ela esteve em pelo menos 32 comícios das Diretas Já e encerrava a todos, puxando o Hino Nacional. Antes, durante o comício, Fafá soltava uma pomba branca e cantava “Menestrel das Alagoas”, homenagem a Teotônio Villela, líder da Anistia política, falecido em 1983, em Maceió.

“Coração de Estudante” era outra música da trilha sonora das Diretas Já. Um de seus autores, Wagner Tiso, era figura assídua nos comícios. Ele ficou tão decepcionado com a não aprovação das eleições diretas que, durante alguns anos, deixou de tocar “Coração de Estudante” em shows.

Sim, quinze dias depois do comício da Candelária, o Congresso rejeitou a chamada emenda “Dante de Oliveira”, que permitiria aos brasileiros votar para presidente. Faltaram 22 votos, sendo que 113 deputados se ausentaram da sessão.

Fafá de Belém foi outra que ficou decepcionada. “Eu tinha 26 anos e não imaginava ser possível o Congresso virar as costas para aquilo tudo. Fomos todos para as ruas e ficamos nessa frustração coletiva”, declarou Fafá em entrevista, há alguns anos.

Mas, como recomendava a música de Gonzaguinha, Fafá e todos os outros – entre eles, Sócrates e Casagrande, da “Democracia Corinthiana”, e Osmar Santos, o locutor das Diretas – não se desesperaram nem pararam de sonhar e, cinco anos depois, os brasileiros estavam votando para presidente.

Vamos, agora, ao vídeo, torcendo para que estes tempos de coronavírus e bozovírus passem logo.

MARIENE DE CASTRO – “SEM COMPANHIA”

“Só gosto de ouvir músicas de Clara na voz da própria Clara Nunes, mas a interpretação dessa cantora, que eu nem conhecia, babei hein!!”. Esse é um dos comentários que acompanham o vídeo em que a baiana Mariene de Castro canta “Sem Companhia”, belíssima e não muito conhecida música lançada em 1980 por Clara Nunes.

Da lavra de Ivor Lancelotti e do grande compositor Paulo César Pinheiro – o último marido de Clara – “Sem Companhia” foi regravada também por Alcione e Fafá de Belém, em discos que homenageiam a mineira guerreira.

Clara Nunes e Paulo César Pinheiro (ao lado) se conheceram em 1974, na quadra da Portela, casaram-se na igreja e no cartório (ela com 32 e ele com 25), e só foram separados pela morte dela, em 1983, aos 40 anos. Se não tivesse sido levada por um choque anafilático, Clara Francisca Gonçalves Pinheiro – sim, o nome dela não tinha o Nunes, que Clara adotou em homenagem à mãe – teria completado 78 anos na quarta-feira, 12.

Já a Mariene de Castro, nascida em 1978, em Salvador, tinha pouco menos de cinco anos, quando Clara Nunes morreu. Aos 12, ela tentou estudar violão e canto, mas, como os pais só tinham condições da pagar um curso, ela optou pelo canto.

Mariene começou sua carreira de cantora como backing vocal do grupo Timbalada. Em dezembro de 1996, aos 18 anos, fez seu primeiro show solo e impressionou dois produtores franceses que estavam atrás de uma artista emergente. Os franceses levaram Mariene para a França, onde ela cantou em mais de 20 cidades e foi aclamada pela crítica francesa que a comparou – pasmem! – a Edith Piaf.

Na quarta-feira, Mariene fez uma live em homenagem a Clara. O vídeo, porém, é mais antigo. E é muito bonito:

 

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