Categoria: Música

ROBERTA SÁ E MARTINHO DA VILA – “ME FAZ UM DENGO E DISRITMIA”

Eu já postei uma bonita versão de “Disritmia” – um dos grandes sucessos do Martinho da Vila – com o grupo Arranco de Varsóvia (aqui). E agora, atendendo à sugestão de um dileto amigo, estou postando um medley com “Me Faz Um Dengo” e “Disritmia”, interpretadas pela Robertá Sá e o Martinho da Vila, no show “Delírio no Circo“, da cantora potiguar.

“Me Faz Um Dengo” foi gravada originalmente pelo Martinho no disco Sentimentos, de 2003. Já “Disritmia” foi lançada em 1974, no disco Canta, Canta, Minha Gente. Curiosamente, Martinho da Vila esteve em Jales naquele mesmo ano, para um show no então Instituto de Educação “Euphly Jalles”.

Depois do show, Martinho e seus músicos se juntaram a alguns notívagos jalesenses e foram terminar a noite no Bar do Olices, que, naquele tempo, ficava ao lado da Rádio Cultura, na Rua Treze, bem em frente à Praça “Euphly Jalles”.

Segundo o meu amigo Seixas, que fez parte da turma que deixou o Bar do Olices às 06:00 horas da manhã, “foi ali que o Martinho da Vila pegou um papel e escreveu de próprio punho a letra de um samba que tinha acabado de gravar, deixando de presente pro Deonel. O samba se chamava Disritmia“.

Vamos ao vídeo com o Martinho e a Roberta Sá:

NANA CAYMMI – “CONTRATO DE SEPARAÇÃO”

O talentoso cronista Pascoalino S. Azords (ou Pascoalino “sempre às ordens”, se preferirem) passou toda sua infância e juventude em Jales, de onde se mudou há mais de trinta anos, depois de namorar diversas moças de família sem que elas soubessem.

Há uns vinte anos, ele escreve crônicas para o combativo jornal “O Debate”, de Santa Cruz do Rio Pardo, algumas delas com reminiscências de sua infância/juventude aqui em Jales. Na semana passada, ele preferiu escrever sobre o falecido sanfoneiro Dominguinhos e sua ex-cara-metade, Anastácia, autores da música “Contrato de Separação”.

A versão recomendada por ele – com a Nana Caymmi, no vídeo mais abaixo – é de 1985, mas existem outras belas interpretações, mais recentes, como a de Zizi Possi, que pode ser vista aqui. Eis a crônica:

Contrato de Separação

Esta crônica nasceu pelo avesso, a partir do título, que, normalmente, é a última tarefa do cronista. Quem sabe assim você me lê.

Contrato de Separação é o nome de uma música de Dominguinhos e Anastácia que a gente ouvia no carro na voz da Nana Caymmi. Dominguinhos e Anastácia foram casados por onze anos. Não tiveram filhos, mas fizeram 212 músicas.

Ele compunha a melodia pela manhã, depois do café, e a mulher se incumbia de fazer a letra mais tarde. “Eu só quero um xodó” talvez seja a que fez mais sucesso. Gilberto Gil gravou em 1974 e, desde então, outros 400 registros foram feitos no Brasil e no exterior.

Quando Dominguinhos, sem aviso prévio, trocou Anastácia por Guadalupe, a esposa traída retalhou a golpes de faca o pôster do sanfoneiro que sorria (dela?) pregado na parede da sala. E também mandou pro lixo as fitas K7 onde estavam gravadas centenas de outras músicas dele que esperavam letra.

Uma das sobreviventes é “Contrato de Separação”: aula de composição feita em apenas doze versos, invejável ou humilhante para quem se arrisca escrevendo.  Eu já disse aqui, mas posso repetir, que quando me deparo com certos exemplares do sexo masculino eu agradeço ao fato de ter tido uma única filha, e por ela já estar (bem) casada. Eu não sei como o pai de Anastácia viveu depois de ler o que a filha escrevia em forma de música – eu não sobreviveria.

Em “Contrato de Separação”, ao invés de discutir com o ex-marido, só resta à traída e abandonada Anastácia negociar com a tristeza. O tal contrato de separação que ela propõe não seria firmado com Dominguinhos, mas com a tristeza que parece rir-se dela ou da sua ilusão, que “por ser ilusão, é mais difícil de apagar”.

Ao invés de brigar com o ex-marido, até porque naquele tempo ainda não existia internet ou celular, Anastácia briga “com a lembrança pra não mais lembrar”. Se ainda resta alguma coisa inteira desse seu domingo, eu te faço um desafio: duvido que você consiga ver, impassivelmente, o vídeo postado no Youtube em que Nana Caymmi canta “Contrato de Separação” acompanhada de Dominguinhos ao acordeom. (Não confundir com o áudio da gravação do CD, também disponível no Youtube).

O vídeo tem apenas dois minutos e meio. É possível que você entenda, afinal, porque certas pessoas ainda querem fazer novas músicas quando já existem tantas músicas no mundo. Tente, são apenas dois minutos e meio, e o domingo taí que não acaba.

You need to a flashplayer enabled browser to view this YouTube video

FILHO DE JALESENSE TOCA COM GILBERTO GIL

O jalesense Luiz Carlos Seixas – morando novamente em Ourinhos, depois de breve auto-exílio no Rio de Janeiro – está em Jales para rever os amigos e trazer notícias. Ganhador de festivais de música nos anos 70, ele – depois de se dedicar apenas ao trabalho durante muitos anos – voltou a compor e está preparando um CD para breve, mas, sobre isso falarei em outro post.

Este post é para registrar que o filho do Seixas, o Glauber – sobre quem eu já falei aqui e aqui – continua sendo motivo de orgulho para o pai. Com apenas 31 anos, Glauber já é considerado um dos nossos grandes violonistas. Ele – que já acompanhou grandes damas da música, como Bethânia e Elza Soares – tocou violão, no sábado passado, em show com Gilberto Gil e outros.

Seixas, o pai orgulhoso, repercutiu postagem de Glauber em sua página no Facebook

glauber-gil

NELSON GONÇALVES E MARTINHO DA VILA – “LEMBRANÇAS”

raul sampaio e roberto carlos“Lembranças” é uma das músicas preferidas de um amigo ouvinte do Brasil & Cia, o Tinhoso. Esse samba-canção é um dos maiores sucessos do compositor capixaba Raul Sampaio (ele cantou no Trio de Ouro, com Herivelto Martins, mas é mais conhecido como compositor). Só não é o seu maior sucesso porque outra música composta por ele – o bolero “Quem Eu Quero Não Me Quer” – também estourou nas paradas dos anos 60.

A primeira gravação de “Lembranças” foi do cantor Miltinho. Há alguns anos, em um CD comemorativo recheado de convidados, Miltinho regravou “Lembranças“, tendo João Bosco como parceiro de cantoria. No vídeo abaixo, ela é cantada por outra dupla de peso: Nelson Gonçalves e Martinho da Vila.

Nascido em Cachoeiro do Itapemirim(ES), Raul é o autor da canção “Meu Pequeno Cachoeiro“, que muita gente pensa ser uma homenagem do Roberto Carlos à sua cidade natal. Na verdade, essa música, composta em 1962, é o hino oficial de Cachoeiro do Itapemirim e foi regravada pelo Roberto Carlos em 1970. Para gravá-la, o rei exigiu a troca de um verso que, na versão original, falava de um jenipapeiro e, na versão de Roberto, fala de um flamboyant.

Raul Sampaio – primo de Sérgio “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua” Sampaio – compôs mais de 200 músicas, entre elas as conhecidas “Meu Pranto Rolou”  (Toquinho e Vinícius), “A Carta” (Erasmo Carlos) e “Revolta” (Nelson Gonçalves). Confira agora a interpretação de Nelson Gonçalves e Martinho da Vila para “Lembranças“:

  

EM JALES, NESSE DOMINGO, O ‘1o CONCERTO A DOIS PIANOS – MOZART’ COM ARRECADAÇÃO DE ALIMENTOS PARA HOSPITAIS

CARTAZ Concerto JalesAcontece nesse domingo, 28/05, a partir das 20:00 horas, no Centro Cultural Dr.Edílio Ridolfo, aqui em Jales, o “1° Concerto a Dois Pianos – Mozart”, com os pianistas Bruna Lima, Terezinha Bataglia e André Pignatari. O concerto terá, ainda, a participação especial do também pianista Djalma Silva, além de três violinos e dois violoncelos. 

O evento – que está sendo organizado pela Escola Dinâmica de Educação Musical (EDEM), em parceria com a AVCC – é totalmente beneficente e, além de arrecadar alimentos para o Hospital de Câncer e a Santa Casa de Jales, tem como objetivo estimular a cultura da música erudita. Os convites poderão ser adquiridos mediante a troca por 5 quilos e/ou 5 litros de alimentos.

Novidade em Jales, o projeto “Concerto a Dois Pianos” nasceu em Votuporanga, onde já foram realizadas três apresentações, com enorme sucesso. A última, homenageando Mozart, foi realizada no sábado passado, 20, e arrecadou cerca de duas toneladas de alimentos que foram doados a entidades de Votuporanga.

Aqui em Jales, além da organização da EDEM / AVCC e do apoio da Prefeitura Municipal, o evento conta com o patrocínio da Poliplantas, Unijales, Anglo, Jales Center Hotel, LHBorr e Gráfica Ellos. Faço questão de citar os patrocinadores pois quem apoia a Cultura merece destaque.  

Nascido em 27 de janeiro de 1756, o austríaco Wolfgang Amadeus Mozart é um dos mais importantes compositores do ocidente. Considerado um prodígio desde a infância, iniciou a carreira aos cinco anos e compôs mais de seiscentas obras. Ele morreu de forma inesperada e misteriosa, com apenas 35 anos de idade e sua morte suscitou diversas teorias e versões, que incluíam envenenamento por mercúrio, gripe e até uma estranha doença nos rins.

CÁSSIA ELLER – “PARTIDO ALTO”

cássia ellerO samba “Partido Alto“, do Chico Buarque, é de 1972, mesmo ano de “Águas de Março” (Tom Jobim), “Pérola Negra” (Luiz Melodia), “Casa no Campo” (Zé Rodrix/Tavito), “Mucuripe” (Fagner/Belchior), “Preta Pretinha” (Moraes Moreira/Luiz Galvão), “Chuva, Suor e Cerveja” (Caetano Veloso), entre outras.

Como se vê, é de uma época em que, anualmente, eram lançadas músicas que seriam lembradas por muito tempo. Quem se lembra, por exemplo, das músicas que foram lançadas em 2015?

“Partido Alto” foi quase uma brincadeira do Chico, composta para a trilha sonora do filme “Quando o Carnaval Chegar“. Claro que ele aproveitou o clima espirituoso da letra para tirar uma onda com a ditadura militar. E é claro, também, que os censores da ditadura – que, depois de “Apesar de Você“, desconfiavam de tudo que Chico fazia – não gostaram da brincadeira.

Eles – os censores – consideraram o samba “uma ofensa ao povo brasileiro” e só consentiram em liberar a música depois de vetar algumas palavras que, na gravação original, foram alteradas por Chico. “Titica”, por exemplo, virou “coisica”. E “brasileiro” virou “batuqueiro”.

Naquela época, o povo brasileiro –  pelo menos na opinião dos censores – se ofendia por pouca coisa, principalmente quando se tratava de composições de Chico Buarque.

Dois exemplos: a palavra “pentelho”, uma das preferidas do Faustão, foi cortada pela censura na gravação de “Ciranda da Bailarina“. E em “Bárbara“, a censura cortou uma palavra para que os brasileiros não se ofendessem com a descoberta de que a música falava do amor entre duas mulheres.

Voltando ao “Partido Alto“, a versão do vídeo abaixo, com a Cássia Eller, já é dos tempos em que a ditadura militar tinha decidido deixar o povo brasileiro se ofender por conta própria. Preserva, portanto, a letra original.

1993, O ANO EM QUE BELCHIOR CANTOU EM JALES

DSC03040-edEm janeiro de 2014, escrevi sobre o show do Belchior, realizado no Teatro Municipal, em Jales (veja aqui), mas não me lembrava em que ano ele esteve por aqui. Ontem me toquei de que, naquela noite, ele me autografou um CD.

Hoje, depois de uma busca em meu bagunçado acervo, encontrei o CD autografado pelo Belchior onde, como se pode ver na foto ao lado, ele registrou, com letra um pouco trêmula, a dedicatória “Para Cardoso. Abraços e Canções do Belchior” e o ano: 1993.

Era uma noite de muito calor e, depois do show, me lembro que o Belchior, transpirando muito, atendia pacientemente aos fãs, no acanhado camarim do nosso Teatro, enquanto uma assessora vendia os CDs que ele autografava. Eu escolhi uma coletânea – “Apenas Um Rapaz Latino Americano” – que trazia 16 canções do compositor cearense.

O show foi fantástico. Durante cerca de uma hora e meia, Belchior cantou para uma plateia que ocupava apenas metade da capacidade do Teatro Municipal. Apesar de pequena, podia-se notar que era uma plateia formada, em sua imensa maioria, por pessoas que conheciam as músicas do compositor/cantor, pois elas cantavam junto com Belchior mesmo as canções menos conhecidas.

Para uma cidade àquela altura impregnada do sertanejo, do pagode comercial e, pior ainda, do terrível “bate-estaca”, o show de Belchior foi um alento.        

Uma das músicas do show – e do CD que comprei – era “Coração Selvagem”, canção que ganhou, recentemente, uma releitura da Ana Carolina no show “#AC ao Vivo“. No vídeo abaixo, a bonita interpretação da cantora e compositora mineira:

BELCHIOR ERA UM CANTOR DA LIBERDADE

fernando moraes montoro e belchior

Do escritor Fernando Moraes, em seu blog, o Nocaute:

Morreu ontem, aos 70 anos, na cidade gaúcha de Santa Cruz, o cantor e compositor cearense Belchior. Celebrizado nos anos setenta pelo sucesso de canções como “Mucuripe”, “Como Nossos Pais” e “Velha Roupa Colorida”. Belchior encerrou subitamente sua carreira nos últimos anos e sumiu. Dado como desaparecido, foi visto com sua mulher ora em cidades uruguaias, ora no interior do Rio Grande do Sul.

No auge da luta pela redemocratização do Brasil, nos anos oitenta, nós nos tornamos amigos. Belchior foi um ativo participante de shows e atos pelo fim da ditadura militar e pelas eleições diretas para presidente da República. Nunca cobrava um tostão, nem mesmo as passagens de avião e estadias em hotéis.

Em uma de suas vindas a São Paulo, manifestou o desejo de conhecer pessoalmente o então governador Franco Montoro, que o recebeu em uma longa audiência no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista (foto).

Nos últimos anos recebi alguns telefonemas de Edna, mulher do Belchior. Às vezes passava o telefone para ele, mas era ela quase sempre quem falava. Contava histórias que me pareciam meio cifradas, incompreensíveis. Eu ficava sem saber se era uma piração ou história real que não podia ser revelada por telefone. Nunca me disseram exatamente onde estavam (as referências eram apenas a “Uruguai” ou “interior do Rio Grande”) nem deixavam algum telefone ou e-mail para que eu pudesse me comunicar com eles. Há uns dois anos, acho, pararam de ligar.

BELCHIOR CONTA COMO CONHECEU ELIS REGINA

Elis, a nossa maior cantora, era um pouco esquentada, a ponto de ganhar do Vinícius o apelido de “Pimentinha”. Personalidade forte à parte, ela tinha um coração e uma generosidade tão grandes quanto seu talento. E sua generosidade permitia que ela desse oportunidade aos novos compositores, gravando suas músicas.

Foi assim com Milton Nascimento, com Ivan Lins e Vítor Martins, com João Bosco e Aldir Blanc, com Fagner, só para citar alguns. E foi assim também com Antônio Carlos Belchior de quem ela gravou duas músicas essenciais: “Como Nossos Pais” e “Velha Roupa Colorida”.

No vídeo abaixo, o Belchior conta, em entrevista ao Miéle, como conheceu Elis. Confiram:

BELCHIOR, UM RAPAZ LATINO-AMERICANO QUE FEZ OBRA MARCANTE NOS ANOS 70

BELCHIOR4

Do jornalista e crítico musical Mauro Ferreira, no G1:

Antônio Carlos Belchior (26 de outubro de 1946 – 29 de abril de 2017) sai de cena aos 70 anos sem que ninguém tenha decifrado o enigma existencial deste cearense nascido em Sobral que abandonou a vida artística a partir de 2007, afundado em dívidas, crises e angústias. Compositor fundamental na corrente migratória que deslocou artistas nordestinos para o eixo Rio–São Paulo ao longo da década de 1970, Belchior logo se desgarrou do pessoal do Ceará para construir obra de identidade própria, ainda que o primeiro sucesso desse cancioneiro autoral, Mucuripe, música lançada em 1972 na voz icônica da cantora Elis Regina (1945 –  1982), tenha sido composto com o conterrâneo Raimundo Fagner.

Belchior estreou em disco em 1971 com a gravação e edição de compacto simples que apresentou a música Na hora do almoço. O primeiro álbum sairia somente em 1974, com a regravação dessa canção Na hora do almoço entre músicas então inéditas como A palo seco e Todo sujo de batom. Lançado pela extinta gravadora Continental, companhia fonográfica de origem brasileira, o álbum não alcançou o público, talvez por conta do canto torto do artista, cortante como faca e como as letras carregadas de urgência e paixão. Belchior precisou esperar dois anos para alcançar o sucesso nacional com a edição do segundo álbum, Alucinação, obra-prima da discografia do cantor e compositor, então já contratado pela multinacional Philips.

Produzido pelo então iniciante Marco Mazzola, Alucinação (1976) contou com arranjos de José Roberto Bertrami e apresentou repertório inteiramente autoral (composto sem parceiros) que destacou o hit radiofônico Apenas um rapaz latino-americano e os dois petardos roqueiros detonados por Elis Regina no ano anterior no roteiro do antológico show Falso brilhante (1975 / 1977), além de nova regravação de A palo seco.

Em Alucinação, Belchior fez uma espécie de inventário emocional das perdas e ganhos da geração que tentou mudar o mundo na década de 1960. O disco já embutia uma amargura na constatação de que tudo continuava como antes. Mas o cantor, seduzido pelo sucesso, diluiria essa desilusão no toque pop do terceiro álbum, Coração selvagem (1977), lançado há 40 anos e alavancado pelo sucesso da passional canção-título, gravada recentemente pela cantora Ana Carolina. Foi o álbum que marcou a estreia do cantor na gravadora WEA.

Mesmo acenando para o pop radiofônico em músicas como Galos, noites e quintais (1976), lançada no ano anterior por Jair Rodrigues (1939 – 2014), Coração selvagem é um grande álbum em que Belchior deu voz à canção Paralelas (1975), música lançada há dois anos na voz de Vanusa, e regravou Todo sujo de batom.

A partir do quarto álbum, Todos os sentidos (1978), Belchior nunca mais alcançou a mesma popularidade e a mesma contundência como compositor, embora Medo de avião, música que abriu o álbum de 1979, tenha tocado muito bem nas rádios e gerado mais um hit para o artista. A rigor, foi a última música de Belchior a ganhar a voz do povo brasileiro.

Belchior gravou discos com regularidade ao longo das décadas de 1980 e 1990. Contudo, álbuns como Objeto direto (1980), Paraíso (1982), Cenas do próximo capítulo (1984), Melodrama (1987) e Elogio da loucura (1988) jamais reeditaram o vigor dos discos dos anos 1970. Em parte porque o repertório era menos inspirado, em que pese uma ou outra boa composição. Em parte porque o tom tecnopop dos arranjos dos anos 1980 estava fora de sintonia com o espírito da obra de um artista que alcançou mais relevância, empatia e representatividade entre 1972 e 1977.

De todo modo, Belchior sempre fez shows pelo Brasil com regularidade, escorado nas canções que lhe deram fama na década de 1970. Nunca lhe faltou público. E talvez tivesse sido assim até ontem à noite, quando ele saiu de cena na cidade gaúcha de Santa Cruz do Sul (RS). A questão é que Belchior, a partir de 2007, resolveu se recolher nos bastidores, cada vez mais arredio e recluso. Reclusão que virou fuga a partir de 2008. O que levou este senhor latino-americano a se retirar de cena há nove anos é um enigma que, ao que tudo indica, permanecerá indecifrado, já que a solução vai embora juntamente com Belchior.

1 2 3 22