Categoria: Música

FLÁVIO VENTURINI E LUIZA POSSI – “BEIJA-FLOR”

Se tivesse feito apenas as melodias de “Todo Azul do Mar” e “Espanhola“, Flávio Venturini já mereceria um lugar no panteão dos grandes compositores brasileiros. Mas ele fez mais que isso: “Nascente“, “Princesa“, “Linda Juventude“, “Uma Velha Canção Rock’n’Roll“, entre outras.

Nascido em 1949, a música entrou definitivamente em sua vida aos cinco anos, quando ganhou um acordeon do pai. Antes dos vinte, ainda nos anos 60, a música já tinha virado profissão. Nos anos 70, ele participou de festivais, gravou – por indicação de Milton Nascimento – com Sá & Guarabira, fez parte do grupo O Terço e fundou a banda 14 Bis, com a qual gravou vários discos.

Em 1982, paralelamente ao seu trabalho com o 14 Bis, iniciou sua carreira solo, gravando nesse ano o LP “Nascente” e, três anos depois, o LP “O Andarilho“. Em 1989, desligou-se do 14 Bis, e continuou sua carreira solo.

Sua obra como compositor foi registrada por diversos artistas, como Leila Pinheiro, Jane Duboc, Emílio Santiago, Simone, Milton Nascimento, Nana Caymmi, Beto Guedes e Peter Gabriel, entre outros.

Uma de suas composições mais recentes, “Céu de Santo Amaro“, foi composta em parceria com Caetano Veloso e… Johann Sebastian Bach. Isso mesmo, “Céu de Santo Amaro” não foi inspirada na cidade natal de Caetano, mas na “Arioso Cantata 156“, do genial Bach. Composta há mais de 200 anos, a música de Bach (se tiver tempo, ouça aqui), caiu como uma luva na letra proposta por Caetano e Venturini.

No vídeo abaixo, uma das canções de Flávio Venturini de que mais gosto: “Beija-Flor”, parceria com o letrista Ronaldo Bastos, interpretada em duo com Luiza Possi, luxuosamente acompanhados pela guitarra e o backing vocal do talentoso Kadu Viana. Confiram:

 

BARÃO VERMELHO – “AMOR, MEU GRANDE AMOR”

Angela Maria Diniz Gonçalves já nasceu com nome de cantora (se bem que o verdadeiro nome da Ângela Maria é – cruzes! – Abelim Maria), mas fez sucesso como Ângela Ro Ro. E não apenas como cantora, mas também como compositora. Logo de cara, ela emplacou “Amor, Meu Grande Amor“, música de seu primeiro disco (ao lado), de 1979.

A música foi feita na Inglaterra, onde Ângela, levada por seu espírito hippie, viveu alguns anos. Foi em Londres, trabalhando como garçonete que ela compôs a melodia de “Amor, Meu Grande Amor“. Originalmente, a música tinha uma letra em inglês e refletia mais uma separação de Ângela, que, jovem ainda, já colecionava alguns desamores.

A letra em português foi feita pela poetisa Ana Terra (nada a ver com a personagem de Érico Veríssimo!), que não conhecia a música de Ângela, mas, coincidentemente, também acabara de vivenciar uma separação. Um amigo comum cuidou de levar a letra de Ana para Ângela – que preparava seu primeiro disco – e esta percebeu que os versos se encaixavam perfeitamente na melodia que ela havia feito em Londres.

Assim nasceu “Amor, Meu Grande Amor“. E assim surgiu Ângela Ro Ro, que, por conta de seu primeiro disco, seria chamada de a “sensação do ano” na música popular, em matéria do Jornal do Brasil, de dezembro de 1979.

Dezesseis anos depois, em 1995, a música foi regravada pelo grupo Barão Vermelho, já com Roberto Frejat como vocalista principal, “estourando” entre os mais jovens. Ângela conta que, em seus shows, já foi interpelada muitas vezes por pessoas que, para agradá-la, dizem: “pôxa, que legal você cantando a música do Frejat!”.

Por via das dúvidas, no disco de 2013 – “Feliz da Vida“, gravado ao vivo – Ângela convidou Frejat para cantar junto com ela o sucesso de ambos, “Amor, Meu Grande Amor“. Maria Bethânia, Jorge Vercillo, Diogo Nogueira e Sandra de Sá também  integram o time de convidados. 

No vídeo abaixo, uma belíssima versão do Barão Vermelho, também ao vivo:

 

ROBERTO CARLOS – “FORÇA ESTRANHA”

“Força Estranha” está completando 40 anos em 2018. Composta por Caetano Veloso e lançada pelo Roberto Carlos em 1978, essa música já foi regravada por artistas como Cauby Peixoto, Gal Costa, o próprio Caetano e até sertanejos como Bruno & Marrone. A releitura mais recente é de Ana Carolina (aqui) no show “Ensaio de Cores“, que virou DVD.

A música foi composta, no entanto, especialmente para Roberto Carlos. É uma homenagem à figura do cantor, descrevendo os motivos que o fazem cantar, juntamente com alusões à sua vida. Quando recebeu a música, Roberto Carlos pediu permissão a Caetano para fazer uma alteração: o acréscimo das palavras “no ar” logo após o verso “por isso essa força estranha”.

A alteração foi aprovada na gravação de Roberto, mas Caetano não a incluiu em suas versões da canção. Porém, toda vez que Caetano canta a música em seus shows, a plateia se encarrega de acrescentar o tal “no ar”, como se pode ver (e ouvir) aqui.

Força Estranha não foi a única composição de Caetano dedicada ao Rei. Antes, ele já tinha feito “Como Dois e Dois“(1971) e “Muito Romântico“(1977). A primeira foi gravada por Roberto nos Estados Unidos, para evitar problemas com a ditadura, já que a letra critica, de forma sutil, a falta de liberdade de expressão existente no Brasil, à época.

“Como Dois e Dois” ficou muito conhecida, também, na voz de Gal Costa. E “Muito Romântico” mereceu versões inspiradas do grupo Cidade Negra (aqui) e do cantor/compositor Oswaldo Montenegro.

No vídeo abaixo, uma das versões ao vivo de “Força Estranha”, com Roberto Carlos:

 

MILTON NASCIMENTO – “TRAVESSIA”

Quando compôs a melodia de “Travessia“, Milton Nascimento – que nasceu no Rio de Janeiro e foi criado em Minas Gerais – morava em São Paulo, em uma pensão. Numa ida a Belo Horizonte, ele mostrou a música ao amigo Fernando Brant e pediu a ele que fizesse uma letra.

Moço sensato, Fernando Brant, que nunca tinha escrito letra para uma música, recusou a incumbência. Teimoso, Milton insistiu e, antes de voltar a São Paulo, sugeriu a Brant um tema para a canção, àquela altura já batizada de “O vendedor de sonhos”: a história de um caixeiro viajante que vendia sonhos.

Tempos depois, de volta a BH, Milton foi ter com Brant e encontrou a música pronta. Brant, no entanto, não aproveitara a ideia do tal vendedor de sonhos. Ele preferiu contar uma história sobre o rompimento de um namoro. Milton gostou da letra e do novo nome dado à canção: “Travessia“, última palavra do livro “Grande sertão: veredas”, de Guimarães Rosa.

A música foi inscrita no II Festival Internacional da Canção (1967), classificando-se em segundo lugar e dando a Milton o prêmio de melhor intérprete. “Travessia” foi regravada por inúmeros cantores e instrumentistas brasileiros, como Elis Regina, Leny Andrade, Agostinho dos Santos, Luís Eça, Paulo Moura, etc. No exterior, recebeu o nome de “Bridges” e foi regravada por diversos artistas, como Sarah Vaughan, Joe Williams e outros.

No vídeo abaixo, Milton canta “Travessia” no show em que comemorava 50 anos de carreira.

FUNDADOR E PRIMEIRA VOZ DO MPB4, RUY FARIA FALECE AOS 80 ANOS

Depois do Magro, agora foi a vez de Ruy Faria sair de cena. Meus ídolos estão morrendo de velhice, o que me leva a supor que também estou ficando velho. O texto abaixo é do blogueiro Mauro Ferreira, do G1:

Poucos cantores brasileiros deram voz a um repertório tão bom quanto Ruy Alexandre Faria (31 de julho de 1937 – 11 de janeiro de 2018). Nascido no município de Cambuci (RJ), o fluminense Ruy Faria gravou o fino do fino da MPB como primeira voz do conjunto MPB4. Se Antônio José Waghabi Filho (1942 – 2013), o Magro, criou como arranjador a marca vocal desse grupo surgido em Niterói (RJ) e profissionalizado a partir de 1965, Ruy Faria ajudou a perpetuar esse DNA vocal em discos e shows ao lado de Aquiles Reis, Miltinho e do próprio Magro.

É por esse legado que Ruy Faria – que saiu de cena na tarde de ontem, aos 80 anos, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), por conta de complicações decorrentes de pneumonia – será sempre lembrado. Como integrante do MPB4, ele deu voz em primeira mão a grandes músicas de grandes compositores da MPB. Basta citar Roda viva (Chico Buarque, 1967), composição defendida pelo grupo em outubro de 1967 no palco do Teatro Paramount, em São Paulo (SP), na final do III Festival de Música Popular Brasileira (TV Record).

Pela proximidade musical e afetiva com Chico Buarque, aliás, o grupo teve acesso imediato à produção do compositor na segunda metade dos anos 1960. Parceria de Milton Nascimento com Ronaldo Bastos, Fé cega, faca amolada também foi lançada pelo MPB4, em 1974, no álbum Palhaços e reis (Philips). Edu Lobo e Ivan Lins, entre outros grandes nomes da MPB, também foram compositores recorrentes na discografia do grupo.

Além de cantar, Ruy Faria assinou roteiros para shows do MPB4. Entre eles, Feitiço carioca, apresentado em 1987 com roteiro centrado na obra do compositor carioca Noel Rosa (1910 – 1937). Sem Ruy Faria, o MPB4 seguiu a trajetória entre questões (sobre direitos do nome do grupo) nunca resolvidas com a voz que se tornou dissidente em 2004.

Sem o MPB4, Ruy também gravou discos. Um, Amigo é pra essas coisas, foi projeto paralelo lançado em 1984, com o cantor ainda no grupo. Outro, Duplas brasileiras – Só pra chatear, gravado com Carlinhos Vergueiro, saiu em 2005, quando o cantor já não integrava o MPB4.

Ruy foi casado com Cynara Faria, vocalista do Quarteto em Cy, grupo feminino contemporâneo do MPB4, e com ela teve os filhos Francisco, Irene e João Faria. Com Cynara, Cyva (outra voz do Quarteto em Cy) e o filho Chico Faria, Ruy formou em 2017 o quarteto vocal CYB4. Foi o canto de cisne deste artista de voz para sempre associada ao melhor da MPB.

No vídeo abaixo, Ruy canta – com a esposa Cynara e o filho Chico Faria – o samba “Injuriado”, de Chico Buarque de Holanda. O samba teria sido feito para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que, em uma viagem a Portugal, andou falando mal de Chico. O compositor, porém, não confirma que FHC seria o alvo de “Injuriado“.

SHOW DE CHICO BUARQUE TERMINA COM PÚBLICO HOMENAGEANDO LULA

Depois de cinco anos ausente dos palcos, Chico Buarque resolveu que não iria começar 2018 “se guardando pra quando o carnaval chegar“. Muito pelo contrário, ele começa o ano novo trabalhando. Chico está na praça com o show “Caravanas”, que passou por Belo Horizonte e chegou ao Rio de Janeiro ontem (04).

Ao final do show, o público da casa de espetáculos Vivo Rio saudou Chico e encerrou a noite com um coro que certamente deixou o cantor/compositor/escritor arrepiado. Veja (e ouça) no vídeo abaixo: 

PÁDUA E TOM CHRIS – “CANTEIROS”

Em Goiás – onde temos a maior concentração de duplas sertanejas por metro quadrado – até a MPB é cantada em dupla. Antônio Pádua da Silva (Pádua) e Cristiano Silva (Tom Chris) são dois intérpretes de MPB muito conhecidos no circuito noturno de Goiânia, onde fazem muitos shows em barzinhos e casas de espetáculo.

No vídeo abaixo, eles interpretam a conhecidíssima e polêmica “Canteiros“, música que rendeu ao cantor/compositor Fagner um rumoroso processo judicial movido pelas filhas da poetisa carioca Cecília Meirelles, falecida em 1964, aos 63 anos de idade.

A família de Cecília Meireles não gostou do fato de Fagner gravar “Canteiros“, em 1972, sem dar o devido crédito à poetisa. Ocorre que, ao escrever a letra da canção, o compositor cearense utilizou versos do poema “Marcha“, de Cecília, sem mencionar isso ao lançar a música no seu primeiro LP. Por conta do processo, as rádios ficaram impedidas de tocar “Canteiros” durante alguns anos, enquanto Fagner ficou proibido de cantá-la em seus shows.

Ao contrário, porém, do que muita gente imagina, a letra de “Canteiros” não é inteiramente baseada nos versos de Cecília. Na verdade, apenas a estrofe inicial é que foi inspirada em um trecho do poema. Quem tiver a curiosidade de conferir o poema vai notar que não existe nenhuma referência, por exemplo, ao “gosto de framboesa”. 

De qualquer forma, foi um plágio. Em 1979, Fagner reconheceu em juízo a utilização da poesia de Cecília. Antes disso, em 1977, ele já havia registrado a poetisa como coautora da letra de “Canteiros“, mas, mesmo assim, a ação judicial teve continuidade e, em 1983, Fagner e a gravadora Polygram foram condenados a pagar uma indenização às filhas de Cecília, por violação de direitos autorais.

A Polygram, entretanto, continuou resistindo e apelou ao STF. O litígio se arrastou até 1999, quando a gravadora Sony Music, sucessora da Polygram, fez um acordo com as herdeiras de Cecília Meireles, que incluía a regravação da música no primeiro álbum ao vivo de Fagner, que viria a ser lançado no ano seguinte.

Antes de ir ao vídeo, compare o trecho da poesia de Cecília com os versos iniciais da música do Fagner:

“Marcha”

Quando penso no teu rosto,

Fecho os olhos de saudade.

Tenho visto muita coisa,

Menos a felicidade.

Soltam-se meus dedos tristes

Dos sonhos claros que invento

Nem aquilo que imagino

Já me dá contentamento

“Canteiros”

Quando penso em você,

Fecho os olhos de saudade.

Tenho tido muita coisa,

Menos a felicidade.

Correm os meus dedos longos

Em versos tristes que invento

Nem aquilo a que me entrego

Já me dá contentamento

 

ZECA BALEIRO – “BOAS FESTAS”

Eu já escrevi sobre o compositor Assis Valente (José de Assis Valente), uma das biografias mais interessantes da MPB. Segundo sua certidão, ele teria nascido em Santo Amaro(BA) – a mesma cidade de Caetano e Bethânia – em março de 1911, mas, segundo ele mesmo contava, seu nascimento teria ocorrido durante uma viagem de sua mãe, entre as cidades de Bom Jardim e Patioba, ambas na Bahia.

Menino ainda, teria sido roubado dos pais e entregue a uma família de Santo Amaro, que o criou. Depois de vagar pelo interior em um circo, chegou a Salvador, onde trabalhou como farmacêutico, estudou desenho e aprendeu prótese dentária. Em 1927, com apenas 16 anos, ele se mudou para o Rio de Janeiro, iniciando-se no ofício de fazer dentaduras.

Começou a compor em 1930 e uma de suas primeiras músicas recebeu o sugestivo nome de “A Infelicidade me Persegue”. Homossexual em uma época em que a sexualidade das pessoas era severamente vigiada, Assis casou-se em 1940 com uma datilógrafa, com quem teve uma filha.

A infelicidade, no entanto, continuou perseguindo o compositor e, alguns meses depois do casamento, ele tentou o suicídio pela primeira vez, pulando do Corcovado em um precipício de 800 metros. Foi salvo por um galho de árvore onde se enroscou e pelos bombeiros que o resgataram.

Em outra ocasião, Assis tentou se matar cortando os pulsos com uma lâmina de barbear. Em março de 1958, bastante endividado, ele decidiu tomar uma dose de formicida com guaraná, depois de ser espalhafatosamente cobrado por uma senhora, a quem ele devia quatro mil cruzeiros. Dessa vez, não teve escapatória.

Antes, ele escreveu um bilhete no qual pedia ao amigo Ary Barroso o favor de pagar os dois meses de aluguel que ele (Assis) estava devendo ao dono da casa onde morava. Pediu também, ao público em geral, que comprassem seu último disco. Em seu bolso, além do bilhete, encontraram um par de óculos, a identidade com o retrato rasgado e duas notas amassadas de cinco cruzeiros.

Assis Valente deixou clássicos da MPB, como “E o Mundo Não Se Acabou“, “Camisa Listrada” e “Brasil Pandeiro“. E deixou também o nosso maior clássico natalino. No Natal de 1931, sozinho em seu quarto, ele resolveu espantar a solidão compondo uma música. Nasceu “Boas Festas“, cuja gravação catapultou a carreira de Carlos Galhardo, àquela altura um cantor iniciante. No vídeo abaixo, “Boas Festas” é cantada por Zeca Baleiro.

  

HUMBERTO GESSINGER E LUIZ CARLOS BORGES – “CORAÇÃO DE LUTO”

Ney Matogrosso é mesmo um artista surpreendente. Aos 76 anos, ele entrou em estúdio especialmente para regravar – pasmem! – o maior sucesso do cantor e compositor gaúcho Vitor Mateus Teixeira (1917 – 1985), o Teixeirinha, que foi muito popular no Brasil dos anos sessenta e setenta, principalmente no Sul do país, com um repertório voltado para os ritmos da música regional caipira.

Ney pôs voz em “Coração de Luto”, composta em 1936. A música, uma  espécie de toada tristonha que virou filme, fala sobre a morte da mãe de Teixeirinha, dona Ledurina, que, ao sofrer um ataque epiléptico, desmaiou sobre uma fogueira e morreu queimada. Não por acaso, a música é conhecida, pejorativamente, como “Churrasquinho de mãe”.

A gravação de Ney foi feita especialmente para a trilha sonora do espetáculo teatral “O homem que queria ser livro”, que deverá entrar em cartaz no próximo mês de janeiro, em São Paulo.

Ney Matogrosso não será, no entanto, o primeiro artista fora do universo caipira a interpretar “Coração de Luto”. Há alguns anos, a canção de Teixeirinha ganhou um toque roqueiro em releitura do líder da banda Engenheiros do Hawaii, o também gaúcho Humberto Gessinger, que, ao contrário do que muita gente pensa, não é engenheiro, mas arquiteto.

Gessinger, como se poderá ver no vídeo abaixo, teve a companhia de outro artista gaúcho, o sanfoneiro Luiz Carlos Borges:

 

FAFÁ DE BELÉM E FAGNER – “LUAR DO SERTÃO”

Catulo da Paixão Cearense foi um compositor e poeta tão importante que até mereceu virar nome de rua em Dirce Reis, uma homenagem, provavelmente, de algum vereador chegado a uma boemia. E mereceu também, uma “autobiografia”, recentemente lançada.

Apesar do nome (sim, Catulo da Paixão Cearense era o nome de batismo dele), Catulo nasceu foi em São Luís do Maranhão, em 1863, e viveu a maior parte de sua vida em uma casa de madeira, no Rio de Janeiro, onde morreu em 1943, pobre como convém a um boêmio. É bem verdade que, dos 10 aos 17 anos, ele morou no Ceará.

Se não tivesse feito mais nada – e ele fez muita coisa, como a imortal “Ontem ao Luar”, repaginada em 2000 pela Marisa Monte  – Catulo já mereceria ser lembrado para sempre por “Luar do Sertão”, uma de suas músicas mais regravada e considerada um hino sertanejo (do homem sertanejo, não da música sertaneja, bem entendido).

Não se sabe o ano em que “Luar do Sertão” foi composta. O que se sabe é que a primeira gravação é de 1914. Sabe-se, também, que a autoria da melodia é polêmica. Catulo morreu dizendo que ele fez música e letra, mas o violonista João Pernambuco jurava que a melodia era de sua autoria. E muita gente que conhecia os dois, incluindo Heitor Villa Lobos, dizia que a melodia era, realmente, de João Pernambuco.

Falemos, porém, da extensa letra que, com certeza, foi escrita por Catulo. Originalmente, “Luar do Sertão” possui doze estrofes, mas nunca ninguém ousou grava-la por inteiro. Na maioria das gravações, os artistas preferem cantar apenas as três ou quatro estrofes mais conhecidas.

Milton Nascimento, numa das mais belas interpretações de “Luar do Sertão”, canta apenas duas estrofes. Roberta Miranda, também em bela interpretação, canta quatro, incluindo uma estrofe menos conhecida – a 6ª – e uma das mais inspiradas:

Mas como é lindo ver depois,
Por entre o mato,
Deslizar, calmo o regato,
Transparente como um véu,
No leito azul das suas águas, murmurando,
Ir, por sua vez roubando,
As estrelas lá do céu !!!

No Youtube, é possível encontrar belas interpretações de “Luar do Sertão”, ao vivo, como as de Elba Ramalho e Jair Rodrigues. No vídeo abaixo, a interpretação de Fafá de Belém e Fagner, com quatro estrofes:

 

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